A coluna de Diogo Mainardi, na revista VEJA desta semana, está espetacular. Vale a pena ler o artigo na íntegra!
Chimpanzés patinadores
por Diogo Mainardi
para VEJA – ed.2018 | 25 de julho de 2007
O que um secretário de Turismo, uma procuradora do estado e um deputado do interior da Bahia podem saber sobre segurança aérea? Eu me sentiria mais seguro se seus cargos na Anac fossem ocupados por chimpanzés patinadores.
Onde está Lula? Lula está de cama. Duzentas pessoas morreram no acidente da TAM. No dia seguinte, Lula preferiu ficar em repouso, de olhos fechados, de barriga para cima, depois de sofrer uma cirurgia cosmética. Sobre os 200 mortos do acidente da TAM, ele se calou. Ele se escondeu. Assim como se calou e se escondeu quando foi vaiado nos Jogos Pan-Americanos. Pode-se argumentar que Lula, o Churchill de Garanhuns, é melhor calado do que falando. Mas é temerário ter um presidente que sempre amarela na hora do aperto.
Ao ser reeleito, em outubro do ano passado, Lula declarou que continuaria a governar para os mais pobres. No setor aéreo, isso se traduziu num descaso criminoso que culminou com os 200 mortos do acidente da TAM, independentemente das falhas do aparelho. O eleitorado de Lula é formado por gente que nunca voou. Quem morre em acidente aéreo é aquela parcela minoritária dos eleitores que sente ojeriza por ele. Na China, Mao Tsé-tung puniu a burguesia obrigando-a a trabalhar em fábricas e em campos de arroz. No Brasil, a luta de classes lulista puniu a burguesia transformando os jatos da Airbus em paus-de-arara.
Os pilotos apelidaram a pista principal do Aeroporto de Congonhas de “Holiday on Ice”. Isso significa que os passageiros assumiram o papel de chimpanzés patinadores. A Anac autorizou a reabertura da pista antes que sua reforma fosse concluída. A Anac é o retrato perfeito da pilhagem lulista. Milton Zuanazzi, seu presidente, fez carreira como secretário de Turismo do Rio Grande do Sul. A melhor credencial que ele tem para ocupar o cargo é a carteirinha do PT. Uma das diretoras da Anac, Denise de Abreu, era assessora jurídica de José Dirceu na Casa Civil. Outro diretor da Anac, Leur Lomanto, é ligado a Geddel Vieira Lima e, alguns anos atrás, foi acusado de negociar vantagens para se filiar ao PMDB. O que um secretário de Turismo, uma procuradora do estado e um deputado do interior da Bahia podem saber sobre segurança aérea? Pergunte ao Lula, quando ele decidir sair da cama. Eu me sentiria mais seguro se seus cargos na Anac fossem ocupados por chimpanzés patinadores.
Em abril, sete meses depois do acidente da Gol, enquanto os deputados do PT tentavam abafar a CPI Aérea, Lula se reuniu sorrateiramente com Carlos Wilson num hotel do Recife. Carlos Wilson presidiu a Infraero no primeiro mandato de Lula e é lembrado por ter reformado os aeroportos com os azulejos da Oficina Brennand, de propriedade de sua mulher. É o modelo de moralidade lulista: sobra dinheiro para os azulejos, mas falta para os radares e o grooving. Outro modelo de moralidade lulista é Luis Fernando Verissimo. Ele disse que prefere ficar calado diante das “mutretas” do lulismo porque teme ser confundido com os reacionários. É o mesmo argumento usado pelos stalinistas para acobertar os crimes do comunismo. Pode roubar, desde que seja para combater o inimigo. Pode matar? Pode, sim. Só uns 200 reacionários de cada vez.
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#1 by Teodoroviski - February 10th, 2010 at 11:41
Diogo Mainardi
Li seu último texto que fala da vacuidade e obviedade dos discursos de Lula. Tem toda razão. Nossa, como os discursos sobre a falta de conteúdo dos discursos de Lula são instrutivos e esclarecedores! Trazerem à tona especificidades tão mascaradas de uma personalidade pública; mascaradas para a massa, porque a classe média muito bem informada, assinantes da Veja, estão sempre com a revista na mão e seu discurso na memória. Sabem que, mesmo sendo esta forma semanal de mídia controlada financeira e administrativamente por uma oligarquia midiática e por latifundiários sedentos por capital, ela é totalmente livre, jamais obedece a voz de seus mandantes, que querem a cabeça de Lula e agora de Dilma, jamais. Ora, a imprensa é livre. Mais interessante ainda foi o fato de ter adotado um grande nome da literatura francesa pra reforçar seu argumento da obviedade discursiva de Lula. Assim causa mais efeito, não é mesmo? Pra que citar Machado de Assis, que trabalhou o mesmo tema com tanta insistência? Ah, mas é nacional… a classe média gosta tanto do importado, não se deve tirar deles esse gosto. Por falar em causar efeito pelo discurso, certamente Flaubert não se oporia à utilização do nome dele para um ato de desmascaramento. De quem? É pura metalinguagem… ele adoraria. Já que citou um grande nome francês, o que dizia La Bruyère sobre o discurso jornalístico? Ah, mas isso certamente não se aplica mais aos dias de hoje quando os jornalistas atingiram uma maturidade intelectual inédita. Quer saber sobre política, chame um jornalista. Quer estar por dentro da economia, não hesite em chamar um jornalista. Não se preocupem, imparcialidade é com eles mesmos. Além de tudo isso, nenhum pensador jamais questionou uma prática, só o discurso. Portanto, não importa o que o Lula faz, só o que diz.