Uma das críticas mais constantes que se ouve a respeito da intervenção americana no Iraque refere-se ao tipo regime que se pretende impor a um povo que não tem qualquer vínculo ou tradição com a democracia ocidental, principalmente, a americana. O ódio aos Estados Unidos, alimentado pela doutrina Bush, tem caracterizado a maioria dos textos que se vêem publicados na imprensa latino-americana e européia.
Por essa razão, a leitura do artigo de Mario Vargas Llosa, que é um resumo – como ele próprio afirma – de um ensaio de Bartle Bull, publicado na revista britânica Prospect -, é um alento àqueles que desejam informação isenta de demagogia e propaganda.
Terroristas se dão mal no Iraquepor Mario Vargas Llosa
para O Estado de S.Paulo | Domingo, 11 de novembro de 2007
Alguém se atreveria a afirmar, hoje, contra a impressão generalizada, que a intervenção militar no Iraque, em vez de um fracasso catastrófico, vai cumprindo seus objetivos e já alcançou um ponto de não retorno? Bartle Bull, especialista inglês no Oriente Médio, no último número de Prospect, a prestigiosa revista londrina dirigida por David Goodhart, publica um ensaio defendendo essa tese, intitulado “Missão cumprida”. Seus argumentos são polêmicos, mas nada propagandísticos, nem demagógicos.
Bull deixa de lado a questão de se foi errônea ou acertada a decisão de intervir no Iraque – algo que os historiadores decidirão no futuro – e limita-se a cotejar a situação atual do país e a que reinava quase quatro anos e meio atrás, quando Estados Unidos, Grã-Bretanha e um grupo de países aliados decidiram acabar com a ditadura de Saddam Hussein. Ele sustenta que, hoje em dia, as forças da coalizão se encontram no Iraque com a anuência de um governo democraticamente eleito e com um mandato que a ONU vem renovando a cada ano desde maio de 2003, a última vez em agosto passado.
No seu entendimento, as metas estratégicas da intervenção foram alcançadas. O Iraque não se desintegrou e sua unidade territorial e política parece agora mais firme do que outrora, pois o sistema descentralizado em marcha conta até com o apoio dos curdos, cuja vocação separatista diminuiu de maneira radical. Em vez de uma ditadura, o país é uma democracia na qual, em todas as eleições realizadas, a participação popular foi enorme, superior à que caracteriza as sociedades abertas do Ocidente, de modo que seu governo tem uma legitimidade jurídica e política indiscutível. O país já se deu uma Constituição que garante uma independência institucional e liberdades públicas que nem o Iraque nem nenhum de seus vizinhos conheceram em sua história.
Não eclodiu uma guerra civil e o Irã não ocupou o Iraque nem tutela sua vida política. O país deixou de ser um perigo para a paz mundial e, embora muito lentamente, vai se convertendo na primeira sociedade árabe com eleições livres, liberdade de imprensa, partidos políticos diversos e direitos civis reconhecidos.
A violência, é claro, continua causando sofrimentos terríveis. Mas, embora seja obscena a comparação, o número de mortos dessa guerra e do terrorismo resultante – os cálculos variam de 80 mil a 200 mil – está longe de alcançar o 1,5 milhão de mortos resultante das guerras, genocídios e repressões do regime baathista de Saddam Hussein. A imensa maioria dessas mortes foi obra das matanças cegas e indiscriminadas contra a população civil cometidas pelos terroristas estrangeiros da Al-Qaeda ou os de organizações sunitas e xiitas que guerreavam entre si e procuravam neutralizar a população civil pelo pânico.
Embora esse gênero de violência provavelmente se prolongue ainda por muito tempo – o número de fanáticos capazes de voar em pedaços com um caminhão ou carro carregado de explosivos parece nunca acabar -, ele perdeu toda significação política e, hoje, converteu-se em um problema puramente local e policial. Foi diminuindo aos poucos, e o fato decisivo contra ele foi o distanciamento e a ruptura crescentes entre a Al-Qaeda e a população sunita. Essa aliança aliança foi esfriando à medida que os dirigentes sunitas se convenciam de que, ao contrário do que acreditavam no início, as tropas americanas e britânicas só abandonarão o país quando o governo iraquiano estiver em condições de assegurar a ordem e a paz. Convenciam-se, em outras palavras, de que o Iraque não será um segundo Vietnã.
Bartle Bull assinala que a aliança entre a Al-Qaeda e outras seitas terroristas fundamentalistas (todas mais ou menos identificadas com um wahabismo radical) empenhadas em ressuscitar a pureza de costumes e a ortodoxia doutrinária “do tempo do Profeta”, de um lado, e os sunitas do Baath (um partido inspirado no nacional-socialismo de Hitler, não se deve esquecer) ansiosos para restaurar os privilégios de que gozavam no tempo de Saddam Hussein estava condenada à divisão.
O mal-estar cresceu quando os fanáticos wahabistas estrangeiros, em sua fúria puritana, começaram a impor sua rígida moral nas zonas por eles dominadas, proibindo o cigarro, assassinando os vendedores de álcool e os xeques das tribos, além de casar jovens à força com os “emires” do grupo denominado “Estado Islâmico do Iraque”.
A ruptura se consumou quando os sunitas compreenderam que podiam encontrar uma forma de acomodação e convivência no novo Iraque onde a maioria xiita – três vezes mais numerosa que a minoria sunita – terá as rédeas do poder.
Bull assinala que a nova política pragmática dos sunitas tornou possível, por exemplo, a notável transformação da Província de Anbar, durante bom tempo uma cidadela da resistência e do terrorismo, e agora a mais pacífica de todo o país. Nas 18 províncias iraquianas, a violência se reduziu a níveis mínimos ou desapareceu na metade delas.
Esse processo deve se acelerar à medida que a população sunita sentir, nos fatos, que sua sobrevivência não está ameaçada no Iraque dominado pelos xiitas e que sua presença, tanto nas instituições como na vida econômica, política e social, está assegurada.
Um passo nessa direção, diz Bull, foi o acordo de princípio entre xiitas, sunitas e curdos sobre a delicada questão da distribuição do faturamento com o petróleo, que deverá ser confirmado em breve com a aprovação de uma lei avalizada pelos Estados Unidos, pela União Européia e pelas Nações Unidas.
Bull destaca alguns marcos nesse desenvolvimento. Um deles foi a batalha entre sunitas e xiitas desencadeada com a destruição, por aqueles, da mesquita de Samarra. Foi o momento em que parecia inevitável uma guerra civil generalizada. Mas os sunitas, cedendo ao realismo, recuaram quando se viram derrotados. A partir daí, eles começaram, no início discretamente e agora de maneira explícita, a pactuar com os Estados Unidos e o governo de Nuri al-Maliki.
Um dos efeitos desses acordos foi o número crescente de sunitas incorporados ao Exército e às forças policiais iraquianas nos últimos meses. Nas últimas semanas, foram 5 mil.
EMPREGO
Ao mesmo tempo, num gesto de reciprocidade, o governo iraquiano deu emprego no serviço público a outros 7 mil sunitas e reconheceu o direito a vencimentos plenos de todos os ex-oficiais e soldados baathistas reformados, com exceção dos 1.500 vinculados a crimes e torturas – a maioria dos quais, ademais, já está presa, morta ou fugiu para a Síria, a Jordânia e a Arábia Saudita.
Esse é um resumo muito sucinto do ensaio de Bartle Bull. Minha impressão é que, embora possa parecer demasiadamente otimista e ainda não ressalte suficientemente, entre suas considerações, as seqüelas trágicas que certamente terá para a reconstrução do Iraque e a normalização de sua vida social a hemorragia atroz de vidas humanas e bens causada pelo terror, assim como a fuga para o estrangeiro de seus melhores quadros, executivos e profissionais, as perspectivas que o analista britânico assinala para o futuro do Iraque são provavelmente exatas, embora os prazos talvez sejam mais dilatados do que ele acredita.
Somente o ódio tão amplo aos Estados Unidos explica o consenso, entre comentaristas e políticos ocidentais e terceiro-mundistas, de que, assim como no Vietnã, as tropas americanas acabarão partido às pressas, expulsas do Iraque pelos “resistentes” e pela repulsa da opinião pública internacional. Por sangrenta e dolorosa que seja a situação no local, o certo é que agora no Iraque não são os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, mas sim os bandos terroristas que estão levando a pior.
A última contra-ofensiva dirigida pelo general americano David Petraeus obteve maior sucesso que o esperado e, até agora, não houve o menor retrocesso. E está claro que se iludiam os que achavam que, com um triunfo democrata nas próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos, viria a debandada. Hillary Clinton e Rudolph Giuliani, os dois prováveis candidatos, deixaram bem claro que, a esse respeito, sua posição é semelhante: a retirada das tropas será feita na medida em que o governo iraquiano esteja em condições de substituí-las tanto na batalha contra o terror como na manutenção da ordem pública.
Sendo assim, eu também penso que os enormes sacrifícios do povo iraquiano nesses últimos quatro anos e meio não terão sido em vão.




#1 by leticia coelho - November 13th, 2007 at 09:38
Sobre as tropas militares do exército Americano no Iraque fico em dúvida em algumas questões. Lembro – me que quando houve a invasão americana (se assim podemos chamar), foi – nos contadas diversas historinhas sobre o motivo real. Bom, hoje vemos que os americanos estavam dispostos somente a ajudar e organizar a democracia do País…sem influenciar na sua cultura ou até mesmo crenças (me corrija se eu estiver viajando)!
Se existem resultados positivos, não vou ser eu que vou dizer que é ruim ter a presença constante de americanos lá, afinal de contas não os transformaram em colônia americana. Apesar de eu ter restrições quando ao Bush…não vejo tantos problemas com seu tipo de política, mas sempre fica aquele pensamento comum martelando na cabeça….aquele da geração coca – cola…rsrs
Quem critica de forma feroz os Estados Unidos, aceita Cuba…pra mim é oito ou oitenta…sei que não tem muito a ver com o texto mas é assim.
beijos
#2 by Ron Groo - November 13th, 2007 at 13:12
Bem, continuo achando que ninguém deu procuração a Bush e aos EUA pra decidir o que é melhor para o povo de um país ou outro. E que em nome desta “liberdade” que nada mais é que eufemismo para ‘petroleo’… De mais à mais adoro Vargas Llhosa e é sempre bom lê-lo e observar seu estilo, enxuto, preciso.
E esta guerra que não acaba nunca me parece com a letra de “Revolution will be not televised” que agora me foge o autor. Seria Bob Dylan?
Ah sim, convidei Gabriel para fazer a crítica a meu texto, mas acho que ele ainda não viu o convite em seu blog.
#3 by Marcus Mayer - November 15th, 2007 at 02:41
Resposta do Blog
Caríssimos Letícia e Ron Groo:
Muito obrigado, pelos comentários. Em vez de respondê-los aqui, o próximo post é para vocês!
Abraços.
#4 by Geniele Trajano - March 8th, 2009 at 23:05
Olá!
gostaria de saber, quem está no governo do Iraque hoje. E se possível, como está a situação da mulher em meio a essas mudanças.
Muito obrigada
#5 by Marcus Mayer - March 9th, 2009 at 20:22
Cara Geniele:
Muito obrigado, pela sua visita ao blog.
O Iraque atual é uma República Parlamentarista. O presidente é Jalal Talabani e o primeiro-ministro é Nouri al-Maliki. Felizmente, a democracia iraquiana está funcionando. As últimas eleições transcorreram em paz e não se registraram atentados terroristas.
Um detalhe interessante é que a quantidade de mortos por dia no Iraque atual, um país que ainda sofre as tensões da guerra, é inferior ao número de mortos em função da criminalidade e do tráfico de drogas no Brasil.
A situação da mulher no Iraque é melhor que em outros países islâmicos. Mas isso não significa dizer que tenham todos os seus direitos respeitados. Todavia, isso não ocorre como consequência da guerra, mas na cultura do Islã, na qual a submissão feminina é tradicional.
Retorne sempre ao blog e registre os seus comentários. Faça uma breve auto-apresentação. Terei prazer em responder aos seus questionamentos.
Abraços.
PS. O mesmo conteúdo foi enviado para o seu eMail.
#6 by Geniele Trajano - March 15th, 2009 at 00:03
Marcus Mayer,
Muito obrigado pela resposta.
Faço Biblioteconomia na UFPB, Jõao Pessoa, e sou apaixonada pelo Oriente Médio, sua história, seu cotidiano, acho interessante a questão do Islamismo, e de como as pessoas de lá o interpretam, a força das mulheres, suas idéias, seus sonhos. O que para elas são utopias, para nós aqui no Brasil, são apenas detalhes, como por exemplo, sai á noite para curtir, malhar, usur roupas chamativas, trabalhar, estudar, enfim, coisas simples do cotidiano. Isso mexe demais comigo. Gostaria muito de entender toda essa relação de xiitas e sunitas, territórios, pois tudo é muito complexo e pelo pouco que sei, já vem de muitos séculos.
Agradeço
Att. Geniele Trajano
PS. Adoraria receber material sobre esse assunto, ficaria muito feliz.
#7 by anna carolyna - May 14th, 2010 at 10:47
queria saber para essa manhã …..
sobre o iraque atual…
deis de então
obriagada
#8 by aspoka - May 16th, 2010 at 12:10
Oi, gostaria de saber como esta o Iraque atualmente em relação a politica,religiao, economia e sociedade.
Obrigada.
Aspoka.