O fenômeno da globalização transformou os cursos de Relações Internacionais (R.I.) numa opção significativamente atrativa para os estudos de graduação e pós-graduação nas melhores universidades brasileiras e ao redor do mundo. A grande procura transformou a carreira numa das mais disputadas da FUVEST, o exame para ingresso na Universidade de São Paulo (USP).
O profissional de R.I., além de aprofundar seus estudos em geografia e história mundial, recebe boa dose de conhecimentos em sociologia, economia, política, direito internacional, filosofia e línguas estrangeiras.
O leque que se apresenta no mercado de trabalho também é bastante amplo. Abrange funções em organizações governamentais e não-governamentais, em organismos internacionais como ONU, OMC, blocos regionais (UE, Mercosul, Nafta), na iniciativa privada etc. Permite também uma excelente base de conhecimentos para eventual ingresso na carreira diplomática (esta depende de aprovação no exame do Instituto Rio Branco, vinculado ao Itamaraty).
Os profissionais podem, ao sabor do próprio gosto e do trabalho que executam, escolher as especializações. Contudo, assim como o é para os diplomatas, a tarefa de dominar a grande gama informações sobre os quase 200 países do mundo, é árdua.
“Quase” 200 países? Por que não apresentar o número exato? – Dependendo da fonte de informação esse número é distinto. O Departamento de Estado americano (U.S. Department of State) reconhece 194 países independentes. As Nações Unidas contabilizam 192 membros e mais dois estados independentes (Vaticano e Kosovo). A minha conta monta a 196, pois nela incluo Taiwan e Palestina.
Toda essa introdução visa somente a demonstrar como é extensa a quantidade de informações com as quais lidam os profissionais de R.I., em geral generalistas. Existem, todavia, aqueles especializados em países específicos ou em determinado grupo (OCDE, América Latina, África, Oriente Médio, Extremo Oriente etc.).
Hillary Clinton, atual Secretária de Estado (cargo que corresponde aqui ao de Ministro de Relações Exteriores) do governo de Barack Obama, admirada pelo seu conhecimento a respeito da geografia mundial, também terá de enfrentar o problema. Todavia, tem à disposição, como fonte de dados, todo o Departamento de Estado.
AFRICA
No início do ano, divulgamos notícia a respeito da entrada em vigor do acordo ortográfico assinado pelos 8 estados que compõem a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, e, Timor Leste). O grupo é integrado por um país europeu, um americano, um asiático e cinco africanos. Exceção feita para Portugal, que integra a União Européia, e para o Brasil, os demais apresentam as piores posições no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e encontram-se entre as nações mais pobres do planeta.
Ontem fomos surpreendidos com a notícia do assassinato do presidente de Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira. Excetuando-se a barbarie do ato, a notícia não encontra nenhuma grande relevância na comunidade internacional. Isso pode ser constatado facilmente, pois, em seguida ao ocorrido, pouquíssimos sites ou canais de notícias tornaram a abordar as consequencias do fato.
Quem lê o post talvez se sinta desestimulado em prosseguir, dada a irrelevância da notícia. Pedimos, contudo, que continue a leitura, pois logo atingiremos o objetivo do texto.
Guiné-Bissau precisa da solidariedade dos brasileiros! Primeiramente, porque seu povo é extremamente sofrido, considerando-se sua história – da colonização portuguesa aos dias recentes, nos quais atravessou guerra civil e sofreu golpes de estado. O seu povo enfrenta todos os mais graves problemas originados na pobreza: elevada taxa de mortalidade infantil (102/1000), analfabetismo (57,6%) e infectados pelo vírus HIV (10%). Guiné-Bissau, de acordo com o CIA World Factbook, está entre os cinco países mais pobres do mundo; sua renda é de somente US$600 (PPP – Purchasing Power Parity). A politica e a economia do país estão infectadas pelo tráfico internacional de drogas.
O segundo fator pelo qual Guiné-Bissau requer solidariedade é a provável existência de primos – por mais remotos que sejam – de boa parcela de brasileiros, que encontra suas raízes entre os escravos negros que para cá foram trazidos à força durante a colonização.
Historiadores e geógrafos classificam a origem dos escravos africanos entre bantos e sudaneses. O primeiro grupo corresponde aos originários, principalmente, do Congo, de Angola e de Moçambique. Os chamados sudaneses, grupo ao qual os povos de Guiné-Bissau podem pertencer sob esta classificação, foram trazidos, principalmente, de territórios que correspondem atualmente à Nigéria, à Costa do Marfim e a Benin, região também conhecida como ”Costa do Escravo”.
Enquanto os bantos foram vendidos (que barbaridade!) em maior número para os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco, os sudaneses ingressaram no Brasil, majoritariamente, pela Bahia. Hoje, seus descendentes habitam e se misturam por todo o território brasileiro.
Ao realizar pesquisa na Internet, fiquei impressionado com o fato de encontrar tão poucas informações sobre Guiné-Bissau. O site oficial do governo parece nem existir. A maior parte das informações que possuo estão nos sites de estatísticas, atlas e livros de geografia. Todavia, tenho uma fonte fidedigna para prestar o testemunho do dia-a-dia do país e de seu povo. É meu colega de curso, Justino Có, na faculdade de Filosofia.
Na USP, tenho a oportunidade de conversar com Justino sobre qualquer assunto e, primacialmente, a respeito de Guiné-Bissau. Sua trajetória pessoal é das mais admiráveis e estou certo que, depois de anos de estudos universitários no Brasil, quando retornar, contribuirá para o desenvolvimento e para a redução da pobreza em seu país. Detalhe interessante dessa história, e que precisa ser lembrado, é que conversamos em português!
Nós brasileiros, temos condições de fazer muito mais que quaisquer outras nacionalidades, para contribuir com Guiné-Bissau e com os demais países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa na África e, até mesmo, no Timor Leste.
Do governo do Brasil, que gosta de afirmar que tem uma diplomacia a qual privilegia as relações com países do continente africano, não podemos esperar nada. O Itamaraty, em toda a sua história, jamais foi conduzido por um time tão incompetente em relações exteriores, como durante o governo atual. Porém, das organizações não-governamentais, das empresas, das escolas, e principalmente dos cidadãos brasileiros, que têm 42,8%* de sua população constituída por descendentes de africanos, conforme dados do IBGE, devemos aguardar muito!
* o percentual corresponde à soma daqueles que se incluem entre “pretos” e “pardos” (terminologia oficial) nas pesquisas do órgão; todavia, o número de descendentes de negros (”esbranquiçados” pela miscigenação, mas que apresentam mais de 10% de contribuição subsaariana no DNA) é consideravelmente maior, e corresponde a 86% da população brasileira, de acordo com estudos de especialistas.
RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
Àqueles que se interessam pela África, recomendo a leitura de um ótimo livro, sob o título Muito longe de casa – Memórias de um menino-soldado, de Ishmael Beah, nascido em Serra Leoa. O relato é autobiográfico. Descreve a matança de sua etnia por rebeldes e seu aliciamento como ”menino-soldado” durante a guerra civil, aos 12 anos de idade. O mais importante da obra é poder constatar a importância de ações humanitárias que acabaram oferecendo um final surpreendente à trajetória.
Aproveito para deixar registrado aqui no blog um especial agradecimento, a minha querida amiga Débora Bomventi, da Universidade de São Paulo, que me presenteou com este livro.





#1 by Victor - March 4th, 2009 at 09:38
Marcus, descobri o seu blog há poucos dias, sou professor de geografia, mas também lenciono história, filosofia e sociologia. Já tenho indicado o seu blog para os meus alunos. Fico maravilhado com o potencial brasileiro a respeito das R.I, porém vejo que devido ao pensamento produzido pelo capitalismo (consumismo e prazer imediato) poucos vão dispor para fazer algo por essas nações, mas sua iniciativa pode gerar um movimento nessa direção, conte comigo!
#2 by Fábio Mayer - March 4th, 2009 at 11:47
Tenho cá meus receios no uso da palavra “ajuda” para países instáveis como a Guiné-Bissau. A diplomacia brasileira atual é mesmo incompetente de dar dó, e é capaz de entenderem que é preciso dar àquele país um bolsa qualquer coisa, ao invés de explorar suas potencialidades e gerar riqueza.
Mas o fato é que, cada vez mais, é difícil, se não impossivel investir (e ajudar) países sem instituições sólidas. O Brasil tem obtido bons resultados no trato com Angola e Namíbia, países que parece, finalmente encontraram um caminho de estabilidade, e tem muito a dar em troca.
Na verdade, a ajuda que o Brasil pode dar a um país como este é no sentido de que ele encontre a estabilidade política e, depois dela, a exploração de suas potencialidades.
Angola, mal ou bem, é um canteiro de obras. O problema é que não seria se não houvesse um governo e é essa a dificuldade em Guiné-Bissau, ela tem um governo, mas não sabe por quanto tempo.
#3 by Marcus Mayer - March 4th, 2009 at 15:22
Caríssimo Fábio: obrigado pelo comentário! Você tocou em aspectos que muito bem complementam o post, sobretudo, no que concerne aos investimentos privados que alguns países recebem, inclusive do Brasil. Isso é muitíssimo bem lembrado. São essas iniciativas que podem tirar o continente do atraso. No que concerne ao termo “ajuda”, reli o post. Constatei redundâncias e erros de digitação. Mas não utilizei a expressão “ajuda” em nenhuma situação. Isso feriria meus próprios princípios. Talvez você tenha se confundido com “solidariedade”, que é muito diferente. No último parágrafo, procurei deixar claro quais seriam as iniciativas mais profícuas. Também não concordo com esse tipo de “ajuda”, que você citou muito corretamente, e que seria possível encontrar no texto de algum petista – jamais aqui, Fábio. Gostei muito do seu comentário, e destacaria “exploração de suas potencialidades” como a melhor “ajuda” – agora sim – para o povo de Guiné-Bissau ou qualquer outro. Procurarei me aprofundar um pouco mais nos próximos artigos sobre a África, para não ser entendido de forma equivocada. Forte abraço.
#4 by Marcus Mayer - March 4th, 2009 at 15:37
Caro Victor, muito obrigado pela visita e pela indicação aos seus alunos! Procure lembrá-los, todavia, que, num blog, expressamos muitas opiniões pessoais. Aqui jamais nos consideramos donos da razão e as críticas são muito bem-vindas. Meu objetivo realmente visa a oferecer um acervo de textos também para consulta estudantil, o que já ocorre na prática. Fico contente quando recebo eMails e comentários de estudantes que agradecem por encontrar aqui textos pouco abordados pela mídia, em geral. Abraços.
#5 by laguardia - March 5th, 2009 at 22:09
Amigos.
Não sou jornalista nem escrevo bem.
Sou aposentado, recebendo do INSS e tendo o IR descontado na fonte. Não recebo as benesses de nosso apedeuta mor que tem pensão do INSS acima do máximo, isento de Imposto de Renda por se achar perseguido político, ou melhor, por se anistiado político.
Luto com as armas que tenho que é um blog, como forma de desabafar ao ver tanta roubalheira, falta de ética, falta de honestidade e principalmente falta de vergonha na cara desta quadrilha que tomou de assalto o Palácio do Planalto.
Quero convidar os amigos a participarem da minha forma de protesto, o blog Brasil – Liberdade e Democracia – http://brasillivreedemocrata.blogspot.com/.
Se não levantarmos nossas vozes em protesto o que será deste país para nossos filhos e netos?
Agora é a hora de lutarmos por uma pátria livre democrática, e sobre todo com governantes honestos e éticos.
#6 by Ron Groo - March 6th, 2009 at 20:34
Existe mesmo um corpo diplomático brasileiro?
Temo que seja lenda…
#7 by Marcus Mayer - March 6th, 2009 at 21:00
Caro Ron: Muito obrigado, pela visita. Você acerta na mosca. E o que existe é chefiado por gente da pior espécie. Mas é muito lamentável para um país que gostaria de ter acento no CS das Nações Unidas, que espera ter alguma relevância no cenário internacional. Abraços.
#8 by Marcus Mayer - March 6th, 2009 at 21:14
Prezado Laguardia: Obrigado, pela visita. Não tenho por hábito permitir propaganda neste espaço reservado para comentários sobre os posts. Todavia, visitei o seu blog e observo que as suas intenções são positivas. Seja bem-vindo para visitas futuras e para o registro de suas impressões. Abraços.
#9 by Richard Santos - May 19th, 2009 at 21:30
Olá, gostei muito do que escreveu sobre R.I. e principalmente sobre África e em especial a Guiné Bissau. Sou jornalista especializado em periferia, sou musico de hip hop e discente em Ciências Sociais, coloco isto pois sou pesquisador sobre África /cultura negra, e tinha a mesma impressão que você postou aqui, sobre a politica de governo do Brasil em relação a África, parece falácia, né?
Pois bem, posso dizer aqui que realmente o Itamarati parece agir independente da politica de Estado, muitas e varias vezes tomando decisões na diplomacia contrária a politica de Estado, diria que eles são um Estado a parte, mas não são o todo.
Enfim, poucos sabem que em cada ministério tem um departamento chamado ” Cooperação Internacional”, e neste setor de cooperação internacional, os ministérios conduzem sua politica sem a necessidade de passar pela chancela do Itamarati. Diante disso, é importante que se saiba que esta semana a Secretaria especial dos Direitos Humanos da Presidência da Republica, enviou uma equipe a Guiné Bissau, entre tantas outras, para iniciar a campanha de registro civil naquele país.Isso não da mídia, porque lamentavelmente os meios de comunicação no país são eurocentricos e não praticam uma politica democratica de informação geral. Por isso uma série de projetos que o Brasil vem desenvolvendo com paises africanos, não são pautas dos grandes meios de comunicação, dando a impressão que nada acontece.
Enfim, não sou representante do governo e não advogo em seu nome, apenas um ativista-jornalista estudioso das questões aqui abordadas, e que tem total consciência dos passos ímpares e propositivos que tem sido dado pelo governo brasileiro e a sociedade civil organizada no resgate de nossa história afrodescendente.