Para as mulheres, com carinho


FèmmeE para os homens que têm a obrigação de conhecer adequadamente o tema.

O debate acerca da descriminalização do aborto e dos limites que dogmas religiosos devem respeitar no âmbito do estado laico, foi reacendido com o evento da menina brasileira de 9 anos, que se submeteu à interrupção de uma gravidez, e da ingerência de um arcebispo da Igreja Católica no assunto.

Coincidentemente, o fato que se originou em Pernambuco, no nordeste brasileiro, alastrou-se pela mídia mundial, durante a semana que antecedeu o Dia Internacional da Mulher.

O artigo a seguir é uma homenagem às mulheres latino-americanas e àquelas dos países pobres ao redor do mundo, contra as quais ainda é imposta uma lei que as submete a sérios danos à saúde e ao risco de perder a vida.

No Brasil, essa legislação implica a segunda maior ‘causa mortis’ entre mulheres jovens (na faixa dos 14 aos 22 anos de idade) e a terceira entre o total de mulheres, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).


mm150x187A democracia e o estado laico
por Marcus Mayer*
exclusivo para o Blog | Domingo, 8 de março de 2009

O aborto aborto não é um assunto agradável e sua ação não entusiasma ninguém. Muito pelo contrário, a circunstância determina uma decisão difícil e quase sempre traumatizante às mulheres que se vêem diante da possibilidade de necessitar do recurso.

Não é absolutamente proveitoso discutir se o embrião de poucas semanas deve ser considerado um ser humano – dotado de alma, segundo os que acreditam – ou um inchaço abdominal que sugere um projeto de vida. Esse debate não encontra respaldo científico definitivo e as crenças religiosas atuam exclusivamente no campo da mitologia.

O que realmente importa é eliminar de antemão a falácia dos argumentos antiaborto que são apresentados como se a sua prática não existisse e só passasse a ocorrer a partir do momento no qual uma lei o aprovasse. Não se pode confundir sob nenhuma hipótese a descriminalização do aborto com o seu estímulo ou a sua promoção.

A realidade demonstra que o aborto existe desde os tempos mais remotos – e continuará ocorrendo independentemente de lei que o tolere ou não. A legislação dos países mais desenvolvidos e laicos  permite à mulher interromper a gravidez em condições de segurança, atendendo plenamente aos cuidados e aos requisitos da medicina.

Isso não acontece onde a prática é considerada ilegal, mas atinge exclusivamente as mulheres pobres. Para as demais, àquelas que dispõem de recursos, não existem obstáculos eficientes e a lei também não as impede de viajarem para países nos quais o aborto é permitido. A própria legislação acaba elevando os custos nos melhores consultórios, dados os riscos legais e médicos, de uma intervenção relativamente simples, que poderia ser pouco dispendiosa.

Por outro lado, aos seguidores mais fiéis de dogmas religiosos, uma legislação liberal como a existente na União Européia não obrigaria uma mãe a abortar jamais. Essa determinação ocorre na China e aconteceu durante o governo de Indira Gandhi, na Índia, como estratégia governamental para reduzir o crescimento populacional (os dois países ultrapassam a cifra de 1 bilhão de habitantes cada um).

É muito respeitável a convicção daqueles que sustentam, guiados pela crença, que o nasciturus (termo jurídico que designa o ser, desde a concepção até o nascimento) já seja um ser humano imbuído de direitos, e cuja existência deve ser respeitada, independentemente dos dogmas católicos.

Todavia, o problema que se espera solucionar por meio da legislação que deixe de considerar criminoso o ato de interromper uma gravidez indesejada está diretamente relacionado aos direitos da mulher. A questão está entre aceitar se o direito de decidir se um filho é desejado cabe à mulher ou à autoridade política.

Também não se discute aqui se a consciência preventiva deveria existir antes da concepção, mas a realidade prática de sua consequência. Em nenhuma hipótese uma legislação descriminalizante implicaria a não importância da adoção de métodos anticoncepcionais, naturais ou artificiais, bem como a educação sexual e as campanhas de controle de natalidade.

As leis de países que permitem o aborto estabelecem prazos máximos para praticá-lo (que variam entre a décima segunda e a vigésima quarta semana) e obrigam a um período de reflexão entre a decisão e o próprio ato.

O fato que repercutiu na imprensa mundial, originado na menina de 9 anos, autorizada pelo estado a praticar o aborto dentro dos limites impostos pela lei vigente, que já permite a interrupção da gravidez em casos de estupro e risco de morte da mulher, foi a manifestação de um arcebispo da Igreja Católica, o qual, sustentado pelo Vaticano, sobressaiu a excomunhão da equipe médica e de sua mãe. Seguindo o que está prescrito no Direito Canônico, o representante da Igreja foi coerente e não cabe aqui questionar a sua fé.

De grande relevância, porém, destacamos a relação entre a Igreja e a democracia. A Igreja Católica não é uma instituição democrática e nem poderia sê-lo. Exceto o budismo, que mais se enquadra como uma filosofia, nenhuma religião é democrática. As verdades que defende são absolutas, provêm de um Deus, e, a transcendência e seus valores morais não são objeto de transações nem de concessões em matéria de valores e verdades opostas.

Os tempos da Inquisição e as imposições do Talibã talvez sejam os exemplos de maior visibilidade e os mais radicais da intolerância religiosa. Essa, felizmente, não é mais a preocupação em torno da questão, sobretudo, no mundo desenvolvido dos dias atuais.

A separação entre Igreja e estado foi uma das grandes conquistas da democracia e da república. A ampliação da secularização, cedo ou tarde, permitirá avançar e terminará por se impor na América Latina, incluindo o Brasil, e também em outros recantos menos desenvolvidos do planeta. Uma vez mais, os direitos da mulher dependem das conquistas do desenvolvimento econômico e social das nações.


Reproduzimos abaixo trechos do artigo “Ponto de Vista“, originalmente publicado no dia 25 de abril de 2007, neste blog. Atualizamos as estatísticas, o mapa e as informações do texto original:

Abortion: your choiceNa América Latina, região na qual o aborto continua proibido na grande maioria dos países¹, estima-se que morram, por ano, cerca de 10.000 mulheres em função de complicações causadas pós-aborto, entre as 4 milhões que se submetem ao procedimento, de acordo com estimativas da OMS (Organização Mundial da Saúde). Por tratar-se de prática não autorizada por lei, mulheres recorrem a clínicas clandestinas, em condições precárias e inadequadas, e muitas, entre aquelas que escapam da morte, acabam sofrendo lesões irreversíveis.

Especialistas estimam que somente no Brasil ocorram, anualmente, 1 milhão de casos de interrupção de gravidez. De acordo como o Ministério da Saúde, as complicações pós-aborto são a 4ª causa de morte de mulheres no país e a curetagem (coleta de restos de tecidos do útero) é o segundo procedimento obstétrico mais praticado nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), superado apenas pelos partos. Em 2004, cerca de 244 mil mulheres foram atendidas para fazer curetagem ou tratar infecções pós-aborto no SUS.

Em editorial, o jornal Folha de S.Paulo, em 2005, já destacava: “enquanto mulheres de classes mais favorecidas recorrem a clínicas particulares e podem até mesmo procurar um país onde o aborto seja legalizado, as que pertencem aos setores de baixa renda são submetidas a situações que colocam em risco a sua saúde”.

Na União Européia e nos Estados Unidos, o direito ao aborto legal e seguro foi conquistado na década dos 1970. Já está mais do que na hora de fazermos avançar nossa ultrapassada legislação, da década dos 1940.

¹ Na América Latina, o aborto só é permitido em Cuba, em Porto Rico, na Guiana e na Guiana Francesa (esta última, submetida à legislação da França).

LEGISLAÇÃO SOBRE O ABORTO NO MUNDO 

Mapa: Legislação sobre aborto
LEGENDA:

?? Legal
?? Legal, em caso de estupro, riscos à saúde da mãe (físicos ou psíquicos), indicação social ou deficiência irreversível do feto.
?? Ilegal com exceções em caso de estupro, risco de morte da mãe ou deficiência irreversível do feto.
?? Ilegal com exceções em caso de estupro e risco de morte da mãe.
?? Ilegal com exceção em caso de risco de morte da mãe.
?? Ilegal sem exceções.
?? De acordo com distinções religiosas.
?? Sem informações.

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  1. #1 by Ricardo Rayol - March 9th, 2009 at 15:37

    começando pela imagem de abertura, absolutamente transcedental etc e tal, vamos ao que interessa. Aborto, ou melhor, a prevenção deveria ser prioridade no mundo. Não é possível que uma religião não enxergue que se não for feito algo logo milhões nascerão fadados à miséria. A não ser é claro que as miríades de ONGs religiosas mamem nessa teta, o que não duvido.

  2. #2 by Ron Groo - March 9th, 2009 at 16:07

    O aborto, antes de tudo, deveria ser visto como um direito da mulher.
    Não é a igreja ou o estado que vai arcar com as consequencias de uma criança gerada de violencia. Não só material, mas psicologica.
    Legislar sobre vida alheia é facil. Imagino se fosse a filha ou irmã deste nobre bispo boquirroto.
    Lennon disse que a mulher é o negro do mundo, no sentido de serem escravas. Ele tinha razão.
    Liberdade para as mulheres.
    Viva o dia delas, atrasado, claro, como sempre.

  3. #3 by Marcus Mayer - March 9th, 2009 at 20:14

    Ricardo Rayol :

    começando pela imagem de abertura, absolutamente transcedental etc e tal, vamos ao que interessa. Aborto, ou melhor, a prevenção deveria ser prioridade no mundo. Não é possível que uma religião não enxergue que se não for feito algo logo milhões nascerão fadados à miséria. A não ser é claro que as miríades de ONGs religiosas mamem nessa teta, o que não duvido.

    Muito obrigado, pelo comentário, Rayol! Gostei da sua definição para a imagem: “transcedental”! Infelizmente, nos enganamos ao pensar que a Igreja possa enxergar a triste realidade. Ainda ontem li num outro blog como as missões atuam na África, onde a população vive sob a epidemia da AIDS e os padres continuam fazendo pregações contra o uso da camisinha. Talvez fosse a hora de tentar calar essas pessoas medievais. Abraços.

  4. #4 by Marcus Mayer - March 9th, 2009 at 20:19

    Ron Groo :

    O aborto, antes de tudo, deveria ser visto como um direito da mulher.
    Não é a igreja ou o estado que vai arcar com as consequencias de uma criança gerada de violencia. Não só material, mas psicologica.
    Legislar sobre vida alheia é facil. Imagino se fosse a filha ou irmã deste nobre bispo boquirroto.
    Lennon disse que a mulher é o negro do mundo, no sentido de serem escravas. Ele tinha razão.
    Liberdade para as mulheres.
    Viva o dia delas, atrasado, claro, como sempre.

    Caro Ron, sinceramente, fico aguardando a chegada do seu comentário a cada post. As suas observações claras e objetivas sempre nos permitem o melhor feedback. Obrigado, mesmo! Eu me considero um liberal, como bem sabe. Mas constato que você expressa ainda muito melhor esta filosofia, tanto por aqui nos comentários quanto em seu próprio blog. Seja sempre muito bem-vindo. Abraços.

  5. #5 by Felipe Maciel - March 14th, 2009 at 16:47

    Excelente texto como sempre! Completíssimo.

    Particularmente sou a favor do aborto mas creio que o estado deve intervir, do contrário vira bagunça e passa a ser confundido com pílula do dia seguinte. Pelo menos no Brasil poderia acabar assim.

    Tem gente que não pode receber a mão senão crê que ganhou o braço. Tem que ser uma mudança longa, gradual, até atingirmos a liberação existente nos países desenvolvidos.

    Não se trata apenas de uma questão jurídica, há uma mentalidade social por trás que precisa ser levada em conta.

    Abraços, Marcus!

  6. #6 by Fábio Mayer - March 16th, 2009 at 17:19

    Eu sou favorável ao aborto.

    Mas no Brasil existe uma carência educacional e de formação moral que complica sua liberação. Ora, a tendência dele é virar indústria, em um país em que o erotismo é vendido precocemente para crianças, sem a contrapartida da educação sexual adequada.

    Logo, para que o aborto possa ser liberado entre nós, é preciso mudar a cultura existente, onde crianças querem rebolar e “vestir-se” igual à Carla Perez ou à Scheila Carvalho, partindo do pressuposto de que elas representam sucesso na vida. E exemplos masculinos não faltam, os garotos querem parecer os “pegadores” das atrizes, camisa de fora, jeito de malandro, etc…

    Então o Brasil não pode liberar o aborto, porque ele vai virar um problema de saúde pública para o governo, e uma solução para a falta de cultura e discernimento de fatia considerável da população, que não entende certos conceitos morais… aliás, que têm uma moral tortuosa.

  7. #7 by Marcus Mayer - March 19th, 2009 at 02:11

    Fábio Mayer :

    Eu sou favorável ao aborto.

    Mas no Brasil existe uma carência educacional e de formação moral que complica sua liberação. Ora, a tendência dele é virar indústria, em um país em que o erotismo é vendido precocemente para crianças, sem a contrapartida da educação sexual adequada.

    Logo, para que o aborto possa ser liberado entre nós, é preciso mudar a cultura existente, onde crianças querem rebolar e “vestir-se” igual à Carla Perez ou à Scheila Carvalho, partindo do pressuposto de que elas representam sucesso na vida. E exemplos masculinos não faltam, os garotos querem parecer os “pegadores” das atrizes, camisa de fora, jeito de malandro, etc…

    Então o Brasil não pode liberar o aborto, porque ele vai virar um problema de saúde pública para o governo, e uma solução para a falta de cultura e discernimento de fatia considerável da população, que não entende certos conceitos morais… aliás, que têm uma moral tortuosa.

    Caro Fábio: obrigado, por sua visita e pelo registro do comentário. As suas observações são sempre muito bem-vindas. Abraços.

  8. #8 by Marcus Mayer - March 19th, 2009 at 02:16

    Felipe Maciel :

    Excelente texto como sempre! Completíssimo.

    Particularmente sou a favor do aborto mas creio que o estado deve intervir, do contrário vira bagunça e passa a ser confundido com pílula do dia seguinte. Pelo menos no Brasil poderia acabar assim.

    Tem gente que não pode receber a mão senão crê que ganhou o braço. Tem que ser uma mudança longa, gradual, até atingirmos a liberação existente nos países desenvolvidos.

    Não se trata apenas de uma questão jurídica, há uma mentalidade social por trás que precisa ser levada em conta.

    Abraços, Marcus!

    Caro Felipe: as suas observações são corretas. Nós também não defendemos a descriminalização do aborto como método anticoncepcional. O assunto é de saúde pública e o estado precisa atender as mulheres, principalmente as carentes, que tanto necessitam de apoio nessa questão. Obrigado, pela visita!

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