Archive for category Liberalismo

Que prisma é esse?

Prisma liberalEnquanto na física o prisma é definido como um poliedro de seção triangular, que tem a propriedade de decompor a luz branca em espectro de cores, o nosso prisma é dotado de sentido figurado e representa um ponto de vista, um modo de considerar algo.

O mundo visto por um prisma liberal, nem sempre, é entendido como gostaríamos. E isso é bastante compreensível, sobretudo considerando a conotação errada e negativa que a palavra liberal tem recebido.

Associa-se o liberalismo – de forma incorreta – à defesa dos interesses dos mais ricos, das camadas mais privilegiadas da população, dos empresários. Os liberais costumam ser confundidos com conservadores egoístas, com privatistas sem escrúpulos, com inimigos dos pobres. Observa-se essa óptica na América Latina e na Europa.

Nos Estados Unidos, de contrapartida, os liberais são comumente taxados de socialistas, adversários da iniciativa privada. Seus princípios estariam à serviço de incentivadores do aborto, do livre uso de drogas, do casamento entre gays, dos defensores do modelo de economia planificada, estatal.

Achamos que o momento seja pertinente para esclarecer o significado do “nosso” prisma liberal. A eleição do democrata (ou liberal?) Barack Obama, nos Estados Unidos, e o governo popular (ou antiliberal?) de Lula da Silva, no Brasil, costumam confundir o observador comum. Exceto estudiosos de ciências políticas ou sociais, naturalmente, ninguém é obrigado a conhecer as ideologias em detalhes.rcus-mayer.com


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mm150x187Um convite à liberdade
por Marcus Mayer
exclusivo para o Blog | Domingo, 2 de agosto de 2009

 Segundo o historiador inglês Eric Hobsbawn, autor de A era dos extremos, o século 20 teria começado com a Grande Guerra, em 1914, e terminado com o colapso da União Soviética em 1991, o último dos grandes impérios a desaparecer.  Para outros, o século foi mais curto: teria começado com a Revolução Comunista em 1917, para terminar com a Queda do Muro de Berlim em 1989. Nesse interregno, a democracia liberal enfrentou adversários de peso, representados pelas figuras de três carniceiros: Stalin, Hitler e Mao Tsé-Tung.

Na América Latina, durante o século passado, convivemos com caudilhos e ditadores. De Vargas e Perón a Pinochet e Fidel, para ficar somente em alguns exemplos mais emblemáticos. No Brasil, tivemos ainda duas décadas de repressão comandadas pelos militares, a partir de 1964.

Com a extinção do mundo bipolar da Guerra Fria, o antigo conflito entre capitalismo e comunismo chegou ao fim. Naturalmente, não nos esquecemos do mundo asiático com suas várias modalidades de autoritarismo confuciano; e não queremos descartar o mais grave problema do mundo islâmico, o qual não consegue separar a religião da política.

Queda do Muro de Berlim, 1989Felizmente, a era de extremos – entre direitas e esquerdas – está definitivamente encerrada. Já se respiram ares de mais liberdade em torno do globo, apesar dos reconhecidos problemas ainda enfrentados pela humanidade, nesse começo de terceiro milênio da Era Comum.

Mesmo assim, restam ainda alguns saudosistas. São aqueles que insistem na tentativa de reviver teorias políticas ultrapassadas e investem no radicalismo, no belicismo, no choque entre as civilizações – como diria Samuel Huntigton.

Os atentados do 11 de Setembro, nos Estados Unidos, serviram de justificativa para a ascensão da chamada doutrina Bush. Os radicais islâmicos conseguiram aterrorizar o mundo e jogaram combustível no conservadorismo cristão norte-americano e dividiram opiniões na velha Europa. O idealismo multilateral das Nações Unidas, que se esperava vitorioso no final do século 20, foi substituído pelo unilateralismo e pela arrogância do governo republicano de George W. Bush.

Enquanto isso, na América Latina, depois de experiências neoliberais ensaiadas nos anos 1990 – que não conseguiram exterminar a miséria no continente –, o populismo e o autoritarismo retornaram ao poder em diversos cantos, agora sob novo título de socialismo do século 21.

Depois desse brevíssimo giro histórico, gostaríamos de apresentar um pouco da nossa noção de liberdade e liberalismo para o mundo.

Primeiramente, desejamos deixar claro que o liberalismo não deve jamais ser confundido com socialismo. E também não deve ser entendido como ideologia a serviço de grupos privilegiados. O liberalismo desse século 21 se opõe, sim, ao populismo e à tirania.

Diagrama NolanPara simplificar a compreensão da localização de nosso pensamento no atual espectro ideológico, utilizamos uma vez mais uma adaptação do diagrama de Nolan, na ilustração ao lado. Observe-se que o esquema se divide em cinco campos: no alto o liberal, abaixo o nacional-estatista, à esquerda o social-democrata, à direita o campo conservador, e entre essas quatro tendências, o centro.

O nosso prisma liberal é pacifista e defensor da conservação do meio ambiente. É multilateralista e plenamente laico. É respeitador da total liberdade de expressão e incentivador da integração econômica dos povos. Por outro lado, não tolera ditaduras, xenofobia, populismo, preconceito, estatismo e fanatismo religioso.

No intuito de permitir uma melhor compreensão destas noções teóricas, propomos a análise de alguns temas frequentes e de grande relevo em nosso cotidiano. A abordagem prática possibilitará um entendimento claro dos valores que nos são caros ao defender uma ideologia. Assim, convidamos o leitor a refletir conosco sobre questões interessantes, que interagem em nossas vidas.

Comecemos com assuntos bastante polêmicos:

ABORTO – Acreditamos que a decisão não deva ser do estado, mas exclusivamente da mulher. Não estamos de acordo com a proibição, nem desejamos incentivar mulheres que se opõem ao aborto a praticá-lo. No nosso ponto de vista, deveríamos seguir o exemplo dos países mais desenvolvidos e descriminalizar a prática.

Mais a respeito de nossa opinião sobre este tópico, pode ser encontrado no artigo A democracia e o estado laico, publicado no último ”Dia Internacional da Mulher”.

DROGAS – Distintamente da maioria dos libertários, não acreditamos que o livre uso de drogas esteja incluso no rol dos nobres direitos individuais. No entanto, não consideramos o dependente criminoso. Achamos que o vício deva ser tratado como doença. Na teoria, poderíamos até concordar com o argumento de que cada um é livre para fazer o que desejar com o seu próprio corpo, até mesmo destruí-lo. Receamos, todavia, que as populações mais carentes, principalmente aquelas que se viciam rapidamente no crack pelas ruas das grandes cidades, possam se tornar vítimas do excesso de liberalização. O mesmo se aplica aos jovens endinheirados que, em algumas baladas e raves, se envenenam com drogas sintéticas.

beijoCASAMENTO GAY – Essa é uma questão de âmbito estritamente pessoal e o estado em nada deve se intrometer na orientação sexual do cidadão. Trata-se aqui, da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Achamos que homossexuais devem gozar dos mesmos direitos de qualquer outra pessoa. Naturalmente, o liberal não espera incentivar homens a trajar vestidos de noiva nem mulheres a usar terno e gravata. Isso nada tem a ver com o assunto. Também no que concerne à adoção, achamos que todos têm os mesmos direitos e obrigações. Vale ressaltar uma vez mais que nenhum tipo de preconceito combina com o liberalismo.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO – A defesa desse valor é dos mais caros ao liberal. Tanto os cidadãos quanto a imprensa devem ter total liberdade para expressarem opiniões. A censura é antidemocrática e serve somente ao autoritarismo. Todavia, estabeleçamos aqui um único limite: a liberdade de expressão não deve jamais ser utilizada para fazer apologia ao crime, ao racismo ou ao preconceito, até mesmo no “território livre” da Internet.

DEMOCRACIA – É impossível ao liberal identificar-se com qualquer tipo de ditadura ou tirania, seja de direita, de esquerda ou religiosa. Tal qual a liberdade de expressão, a democracia está entre os valores indissociáveis ao liberalismo. Condenamos o uso de instrumentos democráticos, como o plebiscito e o referendum, para justificar a centralização de poderes que, indubitavelmente, remetem a uma ditadura.

MITOLOGIA – O liberal garante a liberdade religiosa, mas a separa plenamente do estado. As religiões podem ser ensinadas nas igrejas, mas não como doutrinação em escolas. Além disso, preferimos que símbolos religiosos fiquem distantes das salas de aulas, respeitando-se a diversidade cultural. O mesmo se refere à frequente imposição de religião aos povos silvícolas.

ARMAS DE FOGO – Nesta questão, nós nos diferenciamos da maioria dos liberais, ou seja, somos uma minoria, que considera o uso de armas de fogo exclusividade do estado. Sob nosso prisma, a segurança dos cidadãos deve ser responsabilidade plena do estado. Não encontramos justificativa para o uso particular, exceto no caso de especialistas, treinados para tal no exercício de suas profissões, e também na prática de esportes. Se quem nos lê não concorda com essa opinião, ao menos aqui, é mais liberal que nós.

SAÚDE E EDUCAÇÃO – Ideal seria se todos tivessem a possibilidade de escolher o hospital e a escola mais adequados as suas necessidades e pudessem remunerar os serviços recebidos. Entendemos, contudo, que essa ainda não é a realidade da maioria das pessoas. Assim, reservamos mais uma atribuição ao estado: garantir saúde e educação para as populações que ainda dependam do auxílio estatal.

GARANTIAS TRABALHISTAS – Na nossa óptica essas garantias deveriam ser estabelecidas exclusivamente em contrato, firmado entre empregado e empresa. A regulamentação pode servir, contudo, àquela faixa de trabalhadores desprotegidos e incapazes de estabelecer garantias que não os tornem reféns dos empregadores. Aqueles que o desejassem, porém, deveriam ter a liberdade de negociar salários, férias, licenças, horas-extras, turnos, bônus, assistência médica etc., como melhor lhes coubesse, sem a interferência estatal.

RENDA MÍNIMA – Para expor de forma simples o nosso ponto de vista, tomamos o exemplo do programa Bolsa Família, do governo brasileiro. Seria desumano criticar um esforço estatal que oferece, em média, 90 reais mensais a famílias miseráveis. Consideramos, entretanto, imprescindível associar ao programa estatal meios para retirar as populações definitivamente da pobreza. Ninguém deveria se tornar refém de “esmolas” de políticos populistas.

Um ótimo exemplo de iniciativa governamental que deu certo foram os esforços da Coréia do Sul: no intervalo de três décadas, o país transformou radicalmente a sua economia. Por meio de maciços investimentos em educação, ciência e tecnologia, retirou a população da pobreza, transformando a pequena península asiática na 15ª economia mundial, com renda per capita acima de 25 mil dólares.

Seul 1961 - atual

FILANTROPIA – Alguns liberais ortodoxos consideram a filantropia um convite à preguiça. Não comungamos desse pensamento e vislumbramos a generosidade como alternativa à excessiva presença do estado em algumas áreas. Leve-se em conta o exemplo das melhores universidades americanas, que recebem generosas doações de seus ex-alunos. Esse tipo de caridade permite ao estado economizar recursos públicos e destiná-los, por exemplo para a educação de base.

IMPOSTOS – Mesmo os liberais mais acirrados à doutrina sabem que o estado não sobrevive sem arrecadar impostos. Todavia, quanto menor a quantidade de impostos que se pagam ao governo, mais dinâmica se torna a economia. Sobra mais dinheiro em circulação para os cidadãos e para as empresas e seus empregados. Mas para isso, o estado precisa ser enxuto. No nosso ponto de vista, a folha de pagamentos estatal deve servir somente para remunerar atividades nas quais a iniciativa privada não esteja presente.

FUNCIONALISMO PÚBLICO – Pode ser eficiente e bem remunerado, se em número adequado (extraordinariamente reduzido) e atuando somente nos serviços essenciais. Funcionários públicos devem ter os mesmos direitos e obrigações que empregados do setor privado. Não podem ser cidadãos privilegiados nem de segunda classe.

leninBUROCRACIA – A burocracia é inimiga do liberalismo e do desenvolvimento. Quanto menor a burocracia mais livre é a sociedade e mais eficientemente funciona a economia.

LIVRE CONCORRÊNCIA – O protecionismo e a reserva de mercado – não importando se executados por países ricos ou menos desenvolvidos -, é sempre prejudicial para a economia. Liberais não protegem nem privilegiam determinados setores produtivos. Consideram a concorrência extremamente saudável para a elevação da qualidade e para a redução dos preços.

PRIVATIZAÇÕES – Naturalmente, para contrastar os argumentos pró e contra as privatizações, preferiríamos elaborar um texto mais detalhado. Afinal, trata-se de uma questão que sofre campanhas difamatórias por parte de estatistas mais radicais. Contudo, para resumir nossa óptica liberal, defendemos a privatização em todas as áreas nas quais a iniciativa privada pode ser mais eficiente que o estado. Isso, naturalmente, não se limita aos setores de telefonia ou de mineração, que já comprovaram enorme sucesso ao redor do mundo, e sobretudo no Brasil, mas pode ser adequada aos portos, aeroportos, presídios, estradas, ferrovias, bancos, estádios esportivos etc.

AGÊNCIAS REGULADORAS – O nome pode assustar os liberais, mas reconhecemos a importância de determinados controles. Além da defesa dos consumidores, é necessário garantir a livre concorrência e evitar a criação de monopólios e cartéis. Porém, essas instituições precisam ser totalmente independentes da influência governamental para que cumpram corretamente o papel que lhes é reservado.

RELAÇÕES INTERNACIONAIS – Desejamos a plena integração econômica e comercial, como meio de alcançar a paz e a prosperidade entre os povos. Acreditamos nas instituições multilaterais como as Nações Unidas e a Organização Mundial do Comércio. Não identificamos no embargo imposto a países governados por tiranos (p.ex.: Cuba, Coréia do Norte, Irã) meio eficaz de combate à ditadura. Países que mantém relações comerciais tendem a ser mais contidos, até nos mais tumultuados conflitos diplomáticos, exatamente porque mantém relações comerciais (p.ex.: Venezuela e Estados Unidos). O comércio é um meio eficaz para evitar a guerra.

personality mosaicCertamente, existem muitos outros pontos que poderiam ser considerados, mas acreditamos ter exposto temas de interesse geral que esclarecem bem razoavelmente o nosso prisma liberal.

Nossas prioridades na atuação política são sempre dirigidas aos povos mais necessitados – seja do Brasil, seja do mundo. Não importa se é o estado ou a iniciativa privada que atuarão. Cada um tem a sua atribuição. E um não anula a presença ou a responsabilidade do outro. Combatemos, contudo, os excessos. O radicalismo não é saudável, nem se for sob a óptica dos princípios liberais.

Infelizmente, o liberalismo é uma filosofia, algumas vezes, mal entendida e desvirtuada por seus opositores. Esperamos que, no futuro, quando alguém classificar o liberal como reacionário, elitista, preconceituoso ou, unicamente, defensor dos interesses das classes ricas, você, leitor, tenha argumentos para rebater.

Lembremo-nos também que existem pessoas boas, bem intencionadas, integrando todas as ideologias democráticas. O nosso prisma é constituído de princípios puramente liberais, mas também de pontos que julgamos positivos em outras linhas de pensamento: a social-democracia, a terceira via, o conservadorismo, o ambientalismo etc. O mesmo não se aplica aos aliados e sectários de ditaduras ou tiranias corruptas e racistas.

Àqueles que ainda se debatem radicalmente na defesa de ideologias, seja à direita ou à esquerda, avisamos, simplesmente, que o século 21 já chegou.

Na ilustração: Martin Luther King, Mohandas Gandhi, Roberto Campos, Sérgio Vieira de Mello, Mario Vargas Llosa, Alvaro Vargas Llosa, Al Gore, Konrad Adenauer, Ronald Reagan, Margareth Thatcher, Adam Smith, Alexis de Tocqueville, Jean-Jacques Rousseau, Friedrich Hayek e Ludwig von Mises.

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Obama: o começo da história

Barack Obama

Antes que se definissem nas eleições primárias os nomes dos candidatos que concorreriam por cada um dos dois grandes partidos americanos – o Democrata e o Republicano – à sucessão de George W. Bush, apoiamos o lançamento do nome de Al Gore.

O ex-vice-presidente no governo de Bill Clinton, Al Gore, foi aquele que venceu as eleições presidenciais nas urnas, em 2000, contra George Bush, mas perdeu a disputa nos tribunais do estado da Flórida, governado na época por Jeff Bush, irmão do candidato republicano.

Gore não entrou na corrida presidencial em 2008. Todavia, apresentaram-se à sucessão em Washington alguns nomes interessantes e de competência reconhecida.

Do lado republicano, Rudolph Giulianni, ex-prefeito de Nova York, e John McCain, senador pelo estado do Arizona. Apesar de pertencerem ao mesmo partido do presidente, esses dois nomes expressavam oposição a diversas políticas do governo Bush.

Entre os democratas, Hillary Clinton e Barack Obama travaram uma disputa acirradíssima durante a campanha pelas eleições primárias, encerrada somente no final do processo de escolha do candidato partidário.

McCain foi o escolhido pelos republicanos. Contra ele, Obama venceu a eleição presidencial de 2008, pelo Partido Democrata.

No texto a seguir, apresentamos algumas conclusões que já se podem tirar, após decorridos os primeiros meses do mandato do 44º presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na Casa Branca.


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mm150x187O começo de uma nova história
por Marcus Mayer
exclusivo para o Blog | Quinta-feira, 16 de abril de 2009

 

Friedrich Hegel, um dos grandes filósofos do século 19, foi o precursor de uma teoria denominada “o fim da história”, que caracterizaria um processo de mudança no qual a humanidade atingiria um equilíbrio, representado pela ascensão do liberalismo e da igualdade jurídica. No final do século XX, Francis Fukuyama resgatou a teoria no contexto de sua obra “O fim da história e o último homem” (1992), na qual retrata, de Platão a Nietzsche, passando por Kant e pelo próprio Hegel, os fundamentos de uma teoria na qual o capitalismo e a democracia liberal constituiriam o ápice final de um processo histórico.

Para Fukuyama, após a destruição do fascismo e do socialismo, a humanidade teria atingido o ponto culminante de sua evolução com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes. Restariam apenas vestígios de nacionalismos e o fundamentalismo islâmico ficaria restrito a países periféricos.

Sob uma outra óptica, Samuel Huntington propôs em sua obra, “O choque de civilizações e a reconstrução da ordem mundial” (1996), em oposição a Fukuyama, uma teoria segundo a qual as identidades culturais e religiosas dos povos se tornariam a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria. Em sua tese, afirmava que os grandes conflitos no futuro teriam como eixo principal critérios culturais. Para Huntington, a história não teria terminado.

A eleição de Barack Hussein Obama para a presidência dos Estados Unidos, talvez, represente o início de um novo processo histórico. Preceitos políticos e econômicos, que influenciam toda a sociedade mundial, poderão encontrar novos fundamentos.

O primeiro sinal que aponta para o começo de uma “nova história” é a forma pela qual Obama enfrenta a crise econômica. Por maiores que sejam as intervenções governamentais e os aportes de dinheiro público no setor privado, distintamente da estratégia para combater a crise dos anos 1930, o protecionismo de mercado é a arma descartada de antemão.

Durante a recente cúpula do G20, em Londres, democratas americanos, trabalhistas ingleses e liberais, alemães e franceses, representados respectivamente pelos chefes de estado, dos Estados Unidos, Barack Obama, do Reino Unido, Gordon Brown, da França, Nicolas Sarkozy, e da Alemanha, Angela Merkel, concordaram em manter estímulos ao livre comércio. A interferência estatal sobre empresas em dificuldades só deverá ser exercida quando o risco de aprofundamento na crise e o consequente desemprego em massa buscar por esta solução.

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Internamente, por maior que seja a oposição conservadora ao governo de Obama, republicanos e democratas já não discordam radicalmente, como ocorreu em outros tempos. Principalmente, no que concerne ao grau de liberdade econômica que deve ser oferecido ao mercado. Do lado republicano, reconhecem-se alguns exageros na falta de controles e regulamentações, sobretudo, na área do mercado de capitais. Entre os democratas, não há entusiasmo pela criação de reservas de mercado ou qualquer tipo de estatização de empresas privadas.

O liberalismo econômico é reconhecido como meio eficaz e justo para o alcance do desenvolvimento social dos povos. O livre comércio, como uma das principais consequências da globalização, permitiu a um número extraordinário de cidadãos, principalmente nos países menos desenvolvidos, ultrapassar a linha da pobreza.

Contudo, a distribuição de riquezas não tem ocorrido de forma equânime. Enquanto pobres conseguiram avançar modesta e lentamente, ricos se tornaram muito mais ricos, num prazo exíguo. Essas são distorções que competem aos governos resolver. Abrir mão de impostos e reduzir barreiras comerciais são as melhores soluções. Acabar com subsídios agrícolas e todo tipo de protecionismo de mercado também permitirá grandes avanços, sobretudo, para que nações pobres tenham acesso aos mercados dos países mais desenvolvidos.

No cenário internacional, sobretudo, no que concerne às relações entre os Estados Unidos e os governos com os quais existem profundas diferenças, como nos casos de Cuba e do Irã, o presidente Obama acena com nítidas mudanças. Naturalmente, a vontade de melhorar o relacionamento entre os países depende da boa vontade das duas partes.

Os primeiros sinais para colocar fim ao embargo econômico imposto à ditadura cubana já foram dados. As viagens para a ilha foram totalmente liberadas, tal qual as remessas de dinheiro enviadas por residentes nos Estados Unidos aos seus parentes em Cuba. Até Fidel Castro já se manifestou favorável ao início de conversações. As chances de cubanos reconquistarem a liberdade e seus direitos democráticos tornam a ser reais. 

O caso do Irã é mais difícil. Enquanto os Estados Unidos já não são mais governados por representantes do ultraconservadorismo cristão, o Irã ainda caminha pelos trilhos do fundamentalismo islâmico. Espera-se que as próximas eleições presidenciais iranianas apontem para o abrandamento do regime.

A estratégia de combate ao terrorismo também mudou de foco. Enquanto o governo anterior desperdiçou recursos de todos os tipos no Iraque, Obama pretende ir atrás de terroristas da Al-Qaeda onde realmente se encontram, ou seja, na divisa entre o Paquistão e o Afeganistão.  

O conflito palestino-israelense será, certamente, o maior desafio para a Secretária de estado, Hillary Clinton. A vitória dos conservadores em Israel, liderados por Benjamin Netanyahu e a coligação com o partido de Avigdor Lieberman, que sustentará o seu gabinete, é péssimo indicador para a busca pela paz na região.  

Nesse curto período sob o governo Obama, foi, todavia, no campo das ciências que ocorreu a mais importante mudança interna, com reflexos para toda a humanidade. A lei que impedia o financiamento público para pesquisas com células-tronco embrionárias foi revogada, já nas primeiras semanas do novo governo.

Espera-se que, sob a nova administração democrata em Washington, as crianças americanas resgatem o pleno direito de aprender ciências nas escolas e que o ensino de crenças, sejam elas quais forem, fique restrito às instituições religiosas e às igrejas.

A mesma esperança é depositada em relação à atitude americana frente ao problema do aquecimento global. O liberalismo saberá encontrar regras que permitirão dar continuidade ao desenvolvimento econômico, porém, diminuindo os danos que o progresso imprime ao meio ambiente.

Depois dos oito desastrosos anos de unilateralismo, imposto pela doutrina Bush na Casa Branca, os Estados Unidos voltam a ser vistos como parceiros confiáveis e por meio de um olhar de admiração, e não de rejeição. O país de Barack Obama resgata o respeito que sempre mereceu.

Os valores democráticos e liberais tornam a servir de exemplo para a humanidade, respeitando-se as culturas e as religiões de outros povos. A preservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável retornam à pauta, com mais força que antes. Começa uma nova história.

Clash of Civilizations

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Conversa com bloggers

heidi-montag-birthdayEsta página acaba de completar dois anos na Internet. No primeiro comentário conferido, um amigo da USP, médico psiquiatra, registrava votos de “vida longa” ao blog. Permanecemos viventes. Para comemorar o aniversário, iniciei a redação de um post que abordaria temas sobre a conjuntura brasileira e mundial. No último instante, mudei de idéia. Ainda aguardo pelo resultado da reunião do G20 em Londres. Assim, decidi por uma breve conversa com bloggers, além de destacar um tema que está em discussão no STF, a liberdade de imprensa.

mayer

Naturalmente, você já observou que a sidebar dos blogs contém uma lista de páginas afins. Então, nesta nossa conversa, dou partida com uma pergunta: você procura conhecer esses links?

Ontem, navegava pela página de Alvaro Vargas Llosa, do Independent Institut (link que mantenho desde o início), para conhecer o seu ponto de vista em relação às últimas medidas de Barack Obama. Explorando as conexões da página original, acabei por ancorar num texto a respeito da blogger cubana, Yoani Sánchez, na página de Andrés Durán, da República Dominicana.

Você talvez já tenha ouvido falar dela: Yoani foi vencedora, no ano passado, do prêmio Ortega y Gasset, que lhe rendeu 15 mil euros. Os posts de seu blog chegam a registrar em média entre 100 e 150 mil leitores. Ela escreve de Havana, a capital de Cuba, enfrentando a censura da ditadura dos irmãos Castro.

Não pretendo me alongar nos detalhes sobre sua trajetória, para não estragar a surpresa contida no interessante texto de Durán, que consta traduzido, abaixo.

 samsung-monitorUma segunda questão que gostaria de incluir em nossa conversa refere-se à tecnologia. Antes de adquirir meu monitor atual, tinha um modelo de 17”. Foi substituído por um de LCD 22” widescreen (1680×1050 pixels), que qualifico como espetacular. Todavia, quando o instalei e visitei meu blog, percebi que a página estava ultrapassada. As fontes, o banner superior, tudo estava muito reduzido. Outros blogs, que antes não cabiam na tela, passaram a ser muito melhor visualizados. Foi quando resolvi trocar o layout. Aproveito o gancho para perguntar: qual é o tipo do seu monitor e que navegador de Internet você usa em seu computador? Você também estranha a diversidade na qualidade do layout dos blogs – alguns com colunas principais muito estreitas e outros extremamente largos? 

 Nos últimos dias, instalei o recém lançado Internet Explorer 8. Tive uma boa surpresa: o navegador amplia automaticamente a dimensão de algumas páginas. Curiosamente, por meio dessa ferramenta do IE8, fiquei sabendo que a tecnologia deste blog já está novamente ultrapassada.

Não sei se você notou, mas na parte superior da página, à direita, há um recurso que permite ampliar o tamanho das fontes, conferindo maior conforto à leitura. Você utiliza a ferramenta? Eu me habituei a usá-la, não somente na minha, mas em outras páginas que também oferecem o recurso. Interrompa um pouco a leitura e faça o teste.

A comodidade sempre foi uma de minhas prioridades. Prefiro carros confortáveis aos esportivos, mesmo que estes últimos tenham melhor desempenho. Isso também vale para as viagens aéreas. Upgrades na classe executiva sempre fizeram a minha festa. Assim, para navegar calmamente e ler os textos em seus detalhes, a ferramenta que adapta o tamanho das fontes acaba sendo bastante útil para ampliar o prazer da leitura.

Retornando àquela questão inicial, sobre as sugestões de blogs, decidi pela substituição de seus títulos por mini-banners. O que você achou da iniciativa? Se você é o editor de algum deles e não gostou do design, sinta-se à vontade para reclamar.

Permita-me uma breve apresentação de alguns links:

neoliberal-nao-liberalVou começar pelos blogs do jornalismo profissional, que não exigem nenhuma descrição mais detalhada, pois são conhecidos e reconhecidos em seus trabalhos: Sônia Racy, Lúcia Hippolito, Josias de Souza, Ricardo Noblat são excelentes fontes jornalísticas. Nesse grupo, destacaria o blog de Carlos Alberto Sardenberg, no G1. Estou lendo o seu livro, “Neoliberal, não. Liberal”. Clique na imagem ao lado para ler a resenha e o primeiro capitulo da obra. Certamente, você não se arrependerá!

Como fã da Fórmula 1, tenho duas recomendações interessantes: os blogs de Alessandra Alves, comentarista da Band AM/FM, e de Felipe Maciel, um jovem muito talentoso. Alessandra inclui a graça feminina em seus posts; Felipe escreve diariamente, inclusive durante o recesso das temporadas de F1, sobre tudo o que realmente interessa aos apreciadores do esporte, com notícias de bastidores e opiniões sempre muito coerentes.

E como bom liberal, envolvido nos assuntos de interesse global que tratam da conservação do meio ambiente, tenho acompanhado a ótima coluna de Andréa Vialli, jornalista do Estadão.

No campo das questões nacionais, gostaria de oferecer destaque a mais alguns editores independentes, ou seja, sem vínculo jornalístico profissional:

Neste grupo está um jovem advogado de Curitiba, Fábio Mayer (apesar da coincidência no nome, não somos parentes). No blog que leva seu nome – e admiro isso -, Fábio sabe expor os fatos que interessam ao nosso cotidiano político, com muita consistência argumentativa. Nas entrelinhas de seus textos, não esconde um certo apreço pelo presidente da República, Lula da Silva. Mas é, sobretudo, um fervoroso crítico da corrupção.

Ricardo Rayol é editor do blog “Jus Indignatus”. Seus textos são breves e expostos no formato de pequenos blocos, de leitura agradável e dinâmica. É um “Diogo Mainardi sem censura”. Já disse a ele que mereceria uma cadeira no programa Manhattan Connection, da GNT. Rayol conta em seu blog com a assessoria de alguns personagens imperdíveis: o repórter e analista político Glênio Gangorra, o mago esotérico mais oportunista da atualidade, Heitor Caolho, o especialista em moda Hugo Toso, entre outros, sensacionais! 

Outro blog político que costumo visitar é o “Saí-Verde, Saí-Tucano, Tem-Tem” (título curioso!), de Gonçalves. Nesta página você encontrará um verdadeiro opositor ao governo atual, e sem papas no teclado. Falando em oposição, incluí na lista um banner do blog Democratas. Não é somente propaganda partidária que se encontra por lá, mas um meio de acompanhar a atividade política e parlamentar daqueles em quem votamos. Todavia, muito melhor que com palavras, as charges e cartoons de Sponholz expressam com talento e humor, a realidade política brasileira. Não posso deixar de fora desse grupo o jovem e intelectualizado “libertário”, Rodrigo Constantino, membro dos institutos Liberal e Millenium. Seus artigos são primorosos.

Por que incluí todas essas descrições na conversa? Não sei se esta também é a sua impressão, mas a quantidade de blogs brasileiros realmente bons é muito escassa (refiro-me aos não-profissionais), sobretudo no métier político, econômico e internacional. Você concorda com essa opinião? Se puder, sugira algum blog que considere realmente interessante e inteligente.

groo-on-the-bookMas um ainda está faltando. É o blog do amigo Ron Groo. O tema principal de sua página é a Fórmula 1. Todavia, a característica marcante deste blogger de primeira é o humor e a irreverência, na melhor acepção da palavra. É preciso conhecê-lo para entender o seu estilo simples, porém, extremamente perspicaz ao analisar o cotidiano, e, muito divertido nos contos de sua autoria, publicados no blog.

Para terminar o bate-papo, gostaria de pedir mais um auxílio. Refere-se novamente ao do layout desta página. Você acha que eu deveria incluir ou retirar alguma ferramenta ou informação da coluna direita do blog? E seria adequado alterar o tamanho da fonte (Helvetica) dos textos? Sinta-se a vontade para criticar ou sugerir mudanças que sirvam para aprimorar.

Agora, não desista e continue a leitura pelo artigo de Andrés Durán, que segue. Garanto que valerá a pena.

Tenha um ótimo dia ou uma ótima noite!

NOTA IMPORTANTE: Nem todos os editores de blogs que constam de minha lista de links ou dos mini-banners foram citados neste texto. Estou certo de encontrar oportunidades futuras para destacar seus esforços. 


 REPÚBLICA DOMINICANA

Blog de Yoani Sánchez sobrevive sem Internet
Por Andrés Durán | Blog Bono Cimarrón
Pensamiento Crítico | Santo Domingo 
Traduzido e adaptado por Marcus Mayer

Yoani SánchezEm março de 2008, ofereci destaque ao blog de Yoani Sánchez, Generación Y, por causa da admiração e do respeito que inspira. Esta é, provavelmente, a mídia alternativa mais importante de Cuba. O blog é “made in Cuba” e apresenta até 5 ou 6 mil comentários em alguns de seus posts – o que reflete algo entre 100 e 150 mil leitores.

Precisamente em 7 de maio de 2008, Yoani recebeu o Prêmio Ortega y Gasset de jornalismo digital, com uma gratificação de 15 mil euros. Isso é muito dinheiro, sobretudo, em se tratando de uma cubana, residente em Havana.

O evento causou tal repercussão em Cuba, que até Fidel Castro referiu-se à Yoani no prefácio de uma nova edição do livro “Fidel, Bolívia e algo mais …”. Todavia, a invejável audiência, o dinheiro e as referências diretas de Fidel não são o mais importante a sustentar Yoani, esse fenômeno da comunicação.

O mais extraordinário é que consiga se sobrepôr com um sucesso sem precedentes contra a propaganda governamental, a burocracia do autoritarismo e a intolerância. O domínio desdecuba.com, onde é hospedado o seu blog, está bloqueado na maioria dos servidores ISP do seu país. Ainda assim, ela consegue atualizá-lo e divulgá-lo de forma eficaz.

Seus posts são enviados via eMail para outra pessoa, com privilégios de administrador do site, para atualizar o seu blog. Por sua vez, essa pessoa lhe envia as centenas de comentários deixados pelos leitores.

cd-generacion-yA distribuição do conteúdo do blog – suponho que seja feita de forma clandestina –, ocorre por meio da gravação em CD (veja foto) que vai de mão em mão, ou seja, por uma rede de cidadãos que andam pelas ruas de La Habana e outras províncias, e não pela rede que constitui a Internet.

À margem de admirar qualquer aspecto positivo do processo revolucionário cubano, os princípios da democracia e da liberdade de expressão são inegociáveis.

Sou muito sensível em relação à situação de Yoani, pois observo em seu caso uma estreita relação com a situação dos meios de comunicação na República Dominicana. Aqui a coerção é um tanto mais sutil. Falando claramente, acontece por meio da autocensura imposta pela publicidade governamental, pelo aliciamento político na linha editorial, pela troca de favores, todas razões espúrias, que fazem o jogo da propaganda governamental. Além de rentável, este é um caminho fácil para a apropriação de dinheiro do erário.

Apesar disso, nós que moramos aqui na República Dominicana, vivemos uma situação menos dramática que em Cuba, graças a uma parcela de profissionais de emissoras de radio que mantém a ética jornalistica acima de tudo, e, principalmente, por poder dispor da Internet.

Em último caso, se os escritórios oficiais goebbelianos (ou stalinistas: nota do tradutor) interferirem em tudo, até no ar que respiramos, ainda existirá a irredutível alternativa de criar uma rede de cidadãos, como o fez Yoani em Havana.

guillermo-farinasO bloqueio ao domínio desdecuba.com implicou a greve de fome empreendida em 2006 pelo jornalista Guillermo Fariñas (El Coco), diretor da agência de notícias independente Cubanacan Press. Este ativista político, contrário ao regime cubano, exigiu do governo o mesmo direito que é concedido aos privilegiados pelo regime, de poder ter acesso à Internet em sua casa. “Se meu destino é ser um mártir da liberdade de expressão e conexão à Internet, morrerei tranqüilo”, afirmava Fariñas na época.

Espero que a administração de Raúl Castro seja o início da restauração da liberdade e do respeito aos direitos humanos, sem os quais não adiantam avanços educacionais, culturais, esportivos ou de saúde pública para o povo cubano. Que permita o estabelecimento de um sistema democrático, totalmente independente de interesses externos e da antiga oligarquia que convivia com o regime de Fulgêncio Batista.

Clique aqui para visitar o blog Generación Y, de Yoani Sánchez

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Para as mulheres, com carinho

FèmmeE para os homens que têm a obrigação de conhecer adequadamente o tema.

O debate acerca da descriminalização do aborto e dos limites que dogmas religiosos devem respeitar no âmbito do estado laico, foi reacendido com o evento da menina brasileira de 9 anos, que se submeteu à interrupção de uma gravidez, e da ingerência de um arcebispo da Igreja Católica no assunto.

Coincidentemente, o fato que se originou em Pernambuco, no nordeste brasileiro, alastrou-se pela mídia mundial, durante a semana que antecedeu o Dia Internacional da Mulher.

O artigo a seguir é uma homenagem às mulheres latino-americanas e àquelas dos países pobres ao redor do mundo, contra as quais ainda é imposta uma lei que as submete a sérios danos à saúde e ao risco de perder a vida.

No Brasil, essa legislação implica a segunda maior ‘causa mortis’ entre mulheres jovens (na faixa dos 14 aos 22 anos de idade) e a terceira entre o total de mulheres, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).


mm150x187A democracia e o estado laico
por Marcus Mayer*
exclusivo para o Blog | Domingo, 8 de março de 2009

O aborto aborto não é um assunto agradável e sua ação não entusiasma ninguém. Muito pelo contrário, a circunstância determina uma decisão difícil e quase sempre traumatizante às mulheres que se vêem diante da possibilidade de necessitar do recurso.

Não é absolutamente proveitoso discutir se o embrião de poucas semanas deve ser considerado um ser humano – dotado de alma, segundo os que acreditam – ou um inchaço abdominal que sugere um projeto de vida. Esse debate não encontra respaldo científico definitivo e as crenças religiosas atuam exclusivamente no campo da mitologia.

O que realmente importa é eliminar de antemão a falácia dos argumentos antiaborto que são apresentados como se a sua prática não existisse e só passasse a ocorrer a partir do momento no qual uma lei o aprovasse. Não se pode confundir sob nenhuma hipótese a descriminalização do aborto com o seu estímulo ou a sua promoção.

A realidade demonstra que o aborto existe desde os tempos mais remotos – e continuará ocorrendo independentemente de lei que o tolere ou não. A legislação dos países mais desenvolvidos e laicos  permite à mulher interromper a gravidez em condições de segurança, atendendo plenamente aos cuidados e aos requisitos da medicina.

Isso não acontece onde a prática é considerada ilegal, mas atinge exclusivamente as mulheres pobres. Para as demais, àquelas que dispõem de recursos, não existem obstáculos eficientes e a lei também não as impede de viajarem para países nos quais o aborto é permitido. A própria legislação acaba elevando os custos nos melhores consultórios, dados os riscos legais e médicos, de uma intervenção relativamente simples, que poderia ser pouco dispendiosa.

Por outro lado, aos seguidores mais fiéis de dogmas religiosos, uma legislação liberal como a existente na União Européia não obrigaria uma mãe a abortar jamais. Essa determinação ocorre na China e aconteceu durante o governo de Indira Gandhi, na Índia, como estratégia governamental para reduzir o crescimento populacional (os dois países ultrapassam a cifra de 1 bilhão de habitantes cada um).

É muito respeitável a convicção daqueles que sustentam, guiados pela crença, que o nasciturus (termo jurídico que designa o ser, desde a concepção até o nascimento) já seja um ser humano imbuído de direitos, e cuja existência deve ser respeitada, independentemente dos dogmas católicos.

Todavia, o problema que se espera solucionar por meio da legislação que deixe de considerar criminoso o ato de interromper uma gravidez indesejada está diretamente relacionado aos direitos da mulher. A questão está entre aceitar se o direito de decidir se um filho é desejado cabe à mulher ou à autoridade política.

Também não se discute aqui se a consciência preventiva deveria existir antes da concepção, mas a realidade prática de sua consequência. Em nenhuma hipótese uma legislação descriminalizante implicaria a não importância da adoção de métodos anticoncepcionais, naturais ou artificiais, bem como a educação sexual e as campanhas de controle de natalidade.

As leis de países que permitem o aborto estabelecem prazos máximos para praticá-lo (que variam entre a décima segunda e a vigésima quarta semana) e obrigam a um período de reflexão entre a decisão e o próprio ato.

O fato que repercutiu na imprensa mundial, originado na menina de 9 anos, autorizada pelo estado a praticar o aborto dentro dos limites impostos pela lei vigente, que já permite a interrupção da gravidez em casos de estupro e risco de morte da mulher, foi a manifestação de um arcebispo da Igreja Católica, o qual, sustentado pelo Vaticano, sobressaiu a excomunhão da equipe médica e de sua mãe. Seguindo o que está prescrito no Direito Canônico, o representante da Igreja foi coerente e não cabe aqui questionar a sua fé.

De grande relevância, porém, destacamos a relação entre a Igreja e a democracia. A Igreja Católica não é uma instituição democrática e nem poderia sê-lo. Exceto o budismo, que mais se enquadra como uma filosofia, nenhuma religião é democrática. As verdades que defende são absolutas, provêm de um Deus, e, a transcendência e seus valores morais não são objeto de transações nem de concessões em matéria de valores e verdades opostas.

Os tempos da Inquisição e as imposições do Talibã talvez sejam os exemplos de maior visibilidade e os mais radicais da intolerância religiosa. Essa, felizmente, não é mais a preocupação em torno da questão, sobretudo, no mundo desenvolvido dos dias atuais.

A separação entre Igreja e estado foi uma das grandes conquistas da democracia e da república. A ampliação da secularização, cedo ou tarde, permitirá avançar e terminará por se impor na América Latina, incluindo o Brasil, e também em outros recantos menos desenvolvidos do planeta. Uma vez mais, os direitos da mulher dependem das conquistas do desenvolvimento econômico e social das nações.


Reproduzimos abaixo trechos do artigo “Ponto de Vista“, originalmente publicado no dia 25 de abril de 2007, neste blog. Atualizamos as estatísticas, o mapa e as informações do texto original:

Abortion: your choiceNa América Latina, região na qual o aborto continua proibido na grande maioria dos países¹, estima-se que morram, por ano, cerca de 10.000 mulheres em função de complicações causadas pós-aborto, entre as 4 milhões que se submetem ao procedimento, de acordo com estimativas da OMS (Organização Mundial da Saúde). Por tratar-se de prática não autorizada por lei, mulheres recorrem a clínicas clandestinas, em condições precárias e inadequadas, e muitas, entre aquelas que escapam da morte, acabam sofrendo lesões irreversíveis.

Especialistas estimam que somente no Brasil ocorram, anualmente, 1 milhão de casos de interrupção de gravidez. De acordo como o Ministério da Saúde, as complicações pós-aborto são a 4ª causa de morte de mulheres no país e a curetagem (coleta de restos de tecidos do útero) é o segundo procedimento obstétrico mais praticado nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), superado apenas pelos partos. Em 2004, cerca de 244 mil mulheres foram atendidas para fazer curetagem ou tratar infecções pós-aborto no SUS.

Em editorial, o jornal Folha de S.Paulo, em 2005, já destacava: “enquanto mulheres de classes mais favorecidas recorrem a clínicas particulares e podem até mesmo procurar um país onde o aborto seja legalizado, as que pertencem aos setores de baixa renda são submetidas a situações que colocam em risco a sua saúde”.

Na União Européia e nos Estados Unidos, o direito ao aborto legal e seguro foi conquistado na década dos 1970. Já está mais do que na hora de fazermos avançar nossa ultrapassada legislação, da década dos 1940.

¹ Na América Latina, o aborto só é permitido em Cuba, em Porto Rico, na Guiana e na Guiana Francesa (esta última, submetida à legislação da França).

LEGISLAÇÃO SOBRE O ABORTO NO MUNDO 

Mapa: Legislação sobre aborto
LEGENDA:

?? Legal
?? Legal, em caso de estupro, riscos à saúde da mãe (físicos ou psíquicos), indicação social ou deficiência irreversível do feto.
?? Ilegal com exceções em caso de estupro, risco de morte da mãe ou deficiência irreversível do feto.
?? Ilegal com exceções em caso de estupro e risco de morte da mãe.
?? Ilegal com exceção em caso de risco de morte da mãe.
?? Ilegal sem exceções.
?? De acordo com distinções religiosas.
?? Sem informações.

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Retrato da América Latina

O texto a seguir é um ensaio de Alvaro Vargas Llosa, B.S.C. em História Internacional pela London School of Economics, Diretor do Centro para Prosperidade Global do “Indepent Institute”, publicado na revista “Veja” de 9/5/2007. O autor é filho do renomado escritor peruano Mario Vargas Llosa.

Com efeito, a razão para a publicação do artigo é o fechamento da rede privada de televisão RCTV da Venezuela – medida autoritária do presidente Hugo Cháves, um “perfeito idiota latino-americano”. Apesar da extensão do texto, o ensaio é de altíssima qualidade e permitirá ao leitor compreender o retrocesso que vive parte da América Latina, com seus governantes autoritários, representantes da esquerda populista. Boa leitura!


alvaro_vargas_llosa.jpgO retorno do idiota
por Alvaro Vargas Llosa*

Durante o século XX, os líderes populistas da América Latina levantaram bandeiras marxistas, praguejaram contra o imperialismo e prometeram tirar seus povos da pobreza. Sem exceção, todas essas políticas e ideologias fracassaram, o que levou ao recuo dos homens fortes. Agora, uma nova geração de revolucionários tenta ressuscitar os métodos ineficazes de seus antecessores.

Na reunião de Los Panchos: Chávez, Morales e o cubano Carlos Lage são expoentes da esquerda ainda presa à mentalidade da Guerra Fria. Outra esquerda, que governa no Chile e no Brasil, tenta evitar os erros do passado.

manual_do_perfeito_idiota.jpgDez anos atrás, o colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, o cubano Carlos Alberto Montaner e eu escrevemos o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, livro que criticava os líderes políticos e formadores de opinião que, apesar de todas as provas em contrário, se apegam a mitos políticos mal concebidos. A espécie “Idiota”, dizíamos então, era responsável pelo subdesenvolvimento da América Latina. Tais crenças – revolução, nacionalismo econômico, ódio aos Estados Unidos, fé no governo como agente da justiça social, paixão pelo regime do homem forte em lugar do regime da lei – tinham origem, em nossa opinião, no complexo de inferioridade. No fim dos anos 1990, parecia que os idiotas estavam finalmente em retirada. Mas o recuo durou pouco.

Hoje, a espécie retornou na forma de chefes de estado populistas empenhados em aplicar as mesmas políticas fracassadas no passado. Em todo o mundo, há formadores de opinião prontos a lhes dar credibilidade e simpatizantes ansiosos por conceder vida nova a idéias que pareciam extintas.

Por causa da inexorável passagem do tempo, os jovens idiotas latino-americanos preferem as baladas pop de Shakira aos mambos do cubano Pérez Prado e não cantam mais hinos da esquerda, como A Internacional e Hasta Siempre, Comandante. Mas eles ainda são os mesmos descendentes de migrantes rurais, de classe média e profundamente ressentidos com a vida fútil dos ricos que vêem nas revistas de fofocas, folheadas discretamente nas bancas. Universidades públicas fornecem a eles uma visão classista da sociedade, baseada na idéia de que a riqueza precisa ser tomada das mãos daqueles que a roubaram.

Para esses jovens idiotas, a situação atual da América Latina é resultado do colonialismo espanhol e português, seguido do imperialismo dos Estados Unidos. Essas crenças básicas fornecem uma válvula de segurança para suas queixas contra uma sociedade que oferece pouca mobilidade social. Freud poderia dizer que eles têm o ego fraco, incapaz de fazer a mediação entre seus instintos e a sua idéia de moralidade. Em lugar disso, suprimem o conceito de que a ação predatória e a vingança são erradas e racionalizam a própria agressividade com noções elementares do marxismo.

Os idiotas latino-americanos tradicionalmente se identificam com os caudilhos, figuras autoritárias quase sobrenaturais que têm dominado a política da região, vociferando contra a influência estrangeira e as instituições republicanas. Dois líderes, particularmente, inspiram o Idiota de hoje: os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia.

Chávez é visto como o perfeito sucessor do cubano Fidel Castro (a quem o Idiota também admira): ele chegou ao poder pelas urnas, o que o libera da necessidade de justificar a luta armada, e tem petróleo em abundância, o que significa que pode bancar suas promessas sociais. O Idiota também credita a Chávez a mais progressista de todas as políticas – ter colocado as Forças Armadas, paradigma do regime oligárquico, para trabalhar em programas sociais.

De sua parte, o boliviano Evo Morales tem um apelo indigenista. Para o Idiota, o antigo plantador de coca é a reencarnação de Tupac Katari, um rebelde aimará do século XVIII que, antes de ser executado pelas autoridades coloniais espanholas, profetizou: “Eu voltarei e serei milhões”. O Idiota acredita em Morales quando ele alega falar pelas massas indígenas, do sul do México aos Andes, que buscam reparação pela exploração sofrida em 300 anos de domínio colonial e outros 200 anos de oligarquia republicana.

Para ler a continuação deste excelente artigo, clique no link abaixo:

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Piada de si mesmo

paloma.jpgNada mais divertido do que ouvir um português contando uma “piada de português”. Ninguém melhor para contar uma blague de gordo que o próprio Jô Soares! E um judeu contando um chiste de judeu ganancioso? – É muito alegre e demonstra grandeza de espírito. Naturalmente, estamos nos refirindo àquelas piadas de salão, isentas de preconceitos ou, pior, racismo – que não têm graça nenhuma.

Hoje reproduzo um texto de Millôr, que foi publicado na revista Veja (ed. 02/3/07), fazendo graça com o “neoliberalismo”. Para quem perdeu, bom divertimento! E para quem já leu, vale a pena ler de novo.


aspas.gifIdeário do Perfeito Neoliberal

I. O perfeito neoliberal é pelo ensino livre e universal. As escolas são grátis, as discussões democráticas, e os filhos dos neoliberais poderão ir para as escolas públicas em seus próprios carros.

II. Haverá para todos educação artística e sexual. A primeira incluirá modelagem, pintura a óleo – minimalista e abstrata – e noções gerais de filosofia de telenovelas. A segunda incluirá distribuição de pílulas anticoncepcionais para menores necessitadas, mas muito bonitinhas.

III. No governo neoliberal os jovens não neoliberais terão as mesmas chances sociais dos neoliberais. Porém, para evitar nepotismo, serão esterilizados.

IV. O perfeito neoliberal é a favor do aborto e do controle familiar. As famílias pobres poderão produzir empregadas domésticas até o limite de seis. Por casal empregador.

V. O perfeito neoliberal dará apoio a todas as reformas, inclusive as que projetam edificar nas inúteis lagoas e colocar ciclovias nas favelas.

VI. O perfeito neoliberal nunca afirma veementemente nem nega peremptoriamente. Mas seus olhos limpos e seu constante sorriso de bons dentes demonstrarão permanentemente suas sadias intenções político-sociais.

VII. O perfeito neoliberal é sempre nacionalista – não necessariamente de sua própria nação.

VIII. Por respeito à nova mulher, o perfeito neoliberal conterá seu orgasmo duplo. Por pudor diante do pobre, só comerá em restaurantes fechados, de preferência em coberturas de hotéis estrangeiros. E para controlar os exageros da Receita Federal providenciará sempre uma escrita dupla em caixa 2.

IX. Das revistas exploradoras do pornô e do lenocínio, o perfeito neoliberal só lerá os artigos de elevada conceituação sociológica (viver é um paradoxo), sem que seus olhos jamais se detenham nas partes outrora pudentas das nossas mais intelectualizadas estrelas de televisão. Que, nos grandes encartes, colocam a mulher numa nova posição.

X. Implantando em todas as escolas currículos de educação sexual, teórica e prática, orientados por professores(as) especializados (com imunidade quanto a acusações de pedofilia), o perfeito neoliberal só permitirá a seu filho praticar o sexo ensinado nas faculdades. E com isso provará a excelência da múltipla escolha.aspas-fecha.gif

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Ponto de vista


logo_aborto.jpgNa América Latina, região na qual o aborto continua proibido na grande maioria dos países¹, estima-se que morram por ano, cerca de 4 milhões de mulheres em função de complicações causadas pós-aborto. Por tratar-se de prática não autorizada pela lei, mulheres recorrem a clínicas clandestinas, em condições inadequadas. Especialistas estimam que ocorram, anualmente, 1 milhão de casos de interrupção de gravidez, no Brasil.

De acordo como o Ministério da Saúde, o aborto é a 4ª causa de morte de mulheres no país e a curetagem (coleta de restos de tecidos do útero) é o segundo procedimento obstétrico mais praticado nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), superado apenas pelos partos. Em 2004, cerca de 244 mil mulheres foram atendidas para fazer curetagem ou tratar infecções pós-aborto no SUS.

O tema envolve convicções e dilemas de ordem moral e religiosa. Naturalmente, não são todos os que compartilham das mesmas convicções: nenhuma mulher, mesmo que tenha sofrido um estupro, jamais seria obrigada a interromper a gravidez se não o desejasse, como conseqüência da aprovação da descriminalização da prática.

Nem a igreja nem o estado deveriam interferir em decisões pessoais de cunho tão íntimo, como nessa questão. A aceitação de dogmas religiosos é uma opção individual. E o estado deve limitar-se a oferecer acesso universal à saúde com qualidade, sobretudo, àqueles que não possam pagar pelo atendimento médico particular.

Em editorial, o jornal Folha de S.Paulo, em 2005, já destacava: “enquanto mulheres de classes mais favorecidas recorrem a clínicas particulares e podem até mesmo procurar um país onde o aborto seja legalizado, as que pertencem aos setores de baixa renda são submetidas a situações que colocam em risco a sua saúde”.

Na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, o direito ao aborto legal e seguro foi conquistado na década dos 1970. Já está mais do que na hora de fazermos avançar nossa ultrapassada legislação, da década dos 1940. Por tudo isso, defendemos, neste espaço, a legalização da prática do aborto.

¹ Na América Latina e do Sul, o aborto só é permitido em Cuba, em Porto Rico, na Guiana e na Guiana Francesa (submetida à legislação francesa).

LEGISLAÇÃO SOBRE ABORTO NO MUNDO

Mapa Legislação sobre Aborto

LEGENDA:
?? Legal
?? Legal, em caso de estupro, riscos à saúde da mãe (físicos ou psíquicos), indicação social ou deficiência irreversível do feto.
?? Ilegal com exceções em caso de estupro, risco de morte da mãe ou deficiência irreversível do feto.
?? Ilegal com exceções em caso de estupro e risco de morte da mãe.
?? Ilegal com exceção em caso de risco de morte da mãe.
?? Ilegal sem exceções.
?? De acordo com distinções religiosas.
?? Sem informações.

 


logo-bbc-brasil.jpg

Cidade do México aprova legalização do aborto
25 de abril, 2007 – 00h10 GMT (21h10 Brasília)
BBC Brasil

Depois de mais de sete horas de discussão, a Assembléia Legislativa da Cidade do México aprovou nesta terça-feira a legalização do aborto na capital mexicana.

A nova legislação vai permitir a interrupção da gravidez até a 12ª semana de gestação, mas vale apenas para a Cidade do México. Até agora, a lei somente permitia abortos em caso de estupro, quando a vida da mãe corria risco ou quando havia sinais de graves malformações no feto. O polêmico projeto de lei recebeu 46 votos favoráveis e 19 contrários.

Durante a votação, a polícia teve de aumentar a segurança em torno do prédio da assembléia, onde grupos de manifestantes pró e contra o aborto se reuniram. Opositores do aborto já avisaram que irão contestar a lei na Justiça.

O projeto provocou muito debate e enfrentou grande pressão da Igreja Católica. A Arquidiocese da Cidade do México chegou a ameaçar excomungar os legisladores da capital que votassem a favor da legalização do aborto.

Na semana passada, a Igreja local divulgou uma carta do papa Bento 16 pedindo aos bispos mexicanos para lutar contra a legalização do aborto. O Vaticano expressou sua preocupação com a mudança na lei. O México é o segundo maior país católico do mundo, atrás apenas do Brasil. Cerca de 90% dos mexicanos são católicos.

Antes da votação, pesquisas de opinião mostravam que a sociedade mexicana estava dividida sobre o tema. Entre os argumentos em defesa da lei, os autores do projeto afirmam que pelo menos 1,5 mil mulheres morreram no México na última década em conseqüência de abortos ilegais, feitos em clínicas clandestinas e sem condições mínimas de higiene.

Em um relatório divulgado no ano passado, a organização internacional Human Rights Watch afirmou também que muitas vítimas de estupro no México têm negado o direito de acesso ao aborto legal.

Esta não foi a primeira vez que a assembléia da Cidade do México, controlada pela esquerda, provocou polêmica. Recentemente, os parlamentares aprovaram a união civil de casais do mesmo sexo. Outro projeto em discussão prevê a legalização da eutanásia. 

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El regreso del Idiota

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vargas-llosa.jpgEl regreso del idiota
por Mario Vargas Llosa
para LA NACION | Sábado 24 de febrero de 2007

Hace diez años apareció el Manual del Perfecto Idiota Latinoamericano, en el que Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner y Alvaro Vargas Llosa arremetían con tanto humor como ferocidad contra los lugares comunes, el dogmatismo ideológico y la ceguera política que están detrás del atraso de América latina.

El libro, que golpeaba sin misericordia, pero con sólidos argumentos y pruebas al canto, la incapacidad casi genética de la derecha cerril y la izquierda boba para aceptar una evidencia histórica -que el verdadero progreso es inseparable de una alianza irrompible de dos libertades, la política y la económica, en otras palabras, de democracia y mercado-, tuvo un éxito inesperado. Además de llegar a un vasto público, provocó saludables polémicas y las inevitables diatribas en un continente “idiotizado” por la prédica ideológica tercermundista, en todas sus aberrantes variaciones, desde el nacionalismo, el estatismo y el populismo hasta, cómo no, el odio a Estados Unidos y al “neoliberalismo”.

Una década después, los tres autores vuelven ahora a sacar las espadas y a cargar contra los ejércitos de “idiotas” que, quién lo duda, en estos últimos tiempos, de un confín al otro del continente latinoamericano, en vez de disminuir parecen reproducirse a la velocidad de los conejos y cucarachas, animales de fecundidad proverbial. El humor está siempre allí, así como la pugnacidad y la defensa a voz en cuello, sin el menor complejo de inferioridad, de esas ideas liberales que, en las circunstancias actuales, parecen particularmente impopulares en el continente de marras.

Pero ¿es realmente así? Las mejores páginas de El Regreso del Idiota están dedicadas a deslindar las fronteras entre lo que los autores del libro llaman la “izquierda vegetariana”, con la que casi simpatizan, y la “izquierda carnívora”, a la que detestan. Representan a la primera los socialistas chilenos -Ricardo Lagos y Michelle Bachelet-, el brasileño Lula da Silva, el uruguayo Tabaré Vázquez, el peruano Alan García y hasta parecería -¡quién lo hubiera dicho!- el nicaragüense Ortega, que ahora se abraza con, y comulga con frecuencia de manos de su viejo archienemigo, el cardenal Obando.

Esta izquierda ya dejó de ser socialista en la práctica y es, en estos momentos, la más firme defensora del capitalismo -mercados libres y empresa privada- aunque sus líderes, en sus discursos, rindan todavía pleitesía a la vieja retórica y de la boca para afuera homenajeen a Fidel Castro y al comandante Chávez.

Esta izquierda parece haber entendido que las viejas recetas del socialismo jurásico -dictadura política y economía estatizada- sólo podían seguir hundiendo a sus países en el atraso y la miseria. Y, felizmente, se han resignado a la democracia y al mercado.

La “izquierda carnívora”, en cambio, que, hace algunos años, parecía una antigualla en vías de extinción que no sobreviviría al más longevo dictador de la historia de América latina -Fidel Castro-, ha renacido de sus cenizas con el “idiota” estrella de este libro, el comandante Hugo Chávez, a quien, en un capítulo que no tiene desperdicio, los autores radiografían en su entorno privado y público con su desmesura y sus payasadas, su delirio mesiánico y su anacronismo, así como la astuta estrategia totalitaria que gobierna su política.

Discípulo e instrumento suyo, el boliviano Evo Morales, representa, dentro de la “izquierda carnívora”, la subespecie “indigenista”, que, pretendiendo subvertir cinco siglos de racismo “blanco”, predica un racismo quechua y aymara, idiotez que, aunque en países como Bolivia, Perú, Ecuador, Guatemala y México carezca por completo de solvencia conceptual, pues en todas esas sociedades el grueso de la población es ya mestiza y tanto los indios como los blancos “puros” son minorías, entre los “idiotas” europeos y norteamericanos, siempre sensibles a cualquier estereotipo relacionado con América latina, ha causado excitado furor.

Aunque en la “izquierda carnívora”, por ahora, sólo figuran, de manera inequívoca, tres trogloditas – Castro, Chávez y Morales – en El regreso del idiota se analiza con sutileza el caso del flamante presidente Correa, de Ecuador, grandilocuente tecnócrata, quien podría venir a engordar sus huestes.

Los personajes inclasificables de esta nomenclatura son el presidente argentino, Kirchner, y su guapa esposa, la senadora Cristina Fernández (y acaso sucesora), maestros del camaleonismo político, pues pueden pasar de “vegetarianos” a “carnívoros” y viceversa en cuestión de días y a veces de horas, embrollando todos los esquemas racionales posibles (como ha hecho el peronismo a lo largo de su historia).

Una novedad en El regreso del idiota sobre el libro anterior es que ahora el fenómeno de la idiotez no lo auscultan los autores sólo en América latina; también en Estados Unidos y en Europa, donde, como demuestran estas páginas con ejemplos que producen a veces carcajadas y a veces llanto, la idiotez ideológica tiene también robustas y epónimas encarnaciones. Los ejemplos están bien escogidos: encabeza el palmarés el inefable Ignacio Ramonet, director de Le Monde Diplomatique , tribuna insuperable de toda la especie en el Viejo Continente y autor del más obsecuente y servil libro sobre Fidel Castro -¡y vaya que era difícil lograrlo!-, y lo escolta Noam Chomsky, caso flagrante de esquizofrenia intelectual, que es inspirado y hasta genial cuando se confina en la lingüística transformacional y un “idiota” irredimible cuando desbarra sobre política.

La Madre Patria está representada por el dramaturgo Alfonso Sastre y sus churriguerescas distinciones entre el terrorismo bueno y el terrorismo malo, y los premios Nobel por Harold Pinter, autor de espesos dramas experimentales raramente comprensibles y sólo al alcance de públicos archiburgueses y exquisitos, y demagogo impresentable cuando vocifera contra la cultura democrática.

En el capítulo final, El regreso del idiota propone una pequeña biblioteca para desidiotizarse y alcanzar la lucidez política. La selección es bastante heterogénea pues figuran en ella desde clásicos del pensamiento liberal, como Camino de servidumbre , de Hayek, La sociedad abierta y sus enemigos, de Popper, y La acción humana, de von Mises, hasta novelas como El cero y el infinito, de Koestler, y los mamotretos narrativos de Ayn Rand - El manantial y La rebelión de Atlas . (A mi juicio, hubiera sido preferible incluir cualquiera de los ensayos o panfletos de Ayn Rand, cuyo incandescente individualismo desbordaba el liberalismo y tocaba el anarquismo, en vez de sus novelas que, como toda literatura edificante y propagandística, son ilegibles.)

Nada que objetar, en cambio, a la presencia en esta lista de Gary Becker, Jean François Revel, Milton Friedman y (el único hispano hablante de la selección) Carlos Rangel, cuyo fantasma debe sufrir lo indecible con lo que está ocurriendo en su tierra, una Venezuela que ya no reconocería.

Pese a su buen humor, a su refrescante insolencia y a la buena cara que sus autores se empeñan en poner ante los malos vientos que corren por América latina, es imposible no advertir en las páginas de este libro un hálito de desmoralización. No es para menos. Porque lo cierto es que, a pesar de los casos exitosos de modernización que señala -el ya conocido de Chile y el promisorio de El Salvador, sobre el que aporta datos muy interesantes, así como los triunfos electorales de Uribe en Colombia, de Alan García en Perú y de Calderón en México, que fueron claras derrotas para el “idiota” en cuestión- lo cierto es que en buena parte de América latina hay un claro retroceso de la democracia liberal y un retorno del populismo, incluso en su variante más cavernaria: la del estatismo y colectivismo comunistas.

Esa es la angustiosa conclusión que subyace a este libro afiebrado y batallador: en América latina, al menos, hay una cierta forma de idiotez ideológica que parece irreductible. Se le puede ganar batallas pero no la guerra, porque, como la hidra mitológica, sus tentáculos se reproducen una y otra vez, inmunizada contra las enseñanzas y desmentidos de la historia, ciega, sorda e impenetrable a todo lo que no sea su propia tiniebla.

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