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Esperança na América Latina
Posted by Marcus Mayer in América Latina on January 27th, 2008
Iniciamos nossas atividades em 2008, após um breve perído de ausência, com um excelente artigo e uma interessante recomendação de leitura, dirigida àqueles que nutrem interesse por aprofundar-se nos temas relacionados ao panorama político-econômico da América Latina atual. O livro é: Contos-do-Vigário – O engano de Washington, a mentira populista e a esperança da América Latina, de Andrés Oppenheimer.
No intuito de oferecer uma visão aproximada do conteúdo da obra, apresentamos abaixo um artigo do autor, originalmente publicado pelo jornal “Washington Post”, sob o título Latin America Is Lagging. Someone Tell Its Leaders, no último domingo, 13 de janeiro, e republicado hoje também pelo “O Estado de S.Paulo”. Conforme Oppenheimer, o Brasil e os demais países da América Latina poderiam estar em situação muito melhor, entre outras razões, não fosse o populismo de sua classe política.
Andrés Oppenheimer é argentino, naturalizado americano, foi vencedor do prêmio Pulitzer de jornalismo em 1987 e é colunista do “Miami Herald” (Latin American editor and foreign affairs columnist). O artigo pode ser lido em inglês, no site do “Washington Post”, clicando-se sobre o link inserido no título destacado no parágrafo anterior.
Na oportunidade, aproveito para agradecer pelos diversos e-mails enviados durante nossa ausência (respondidos) e pelos tão simpáticos comentários deixados no último post.
América Latina está ficando para trás
por Andrés Oppenheimer*
para o jornal Washington Post | Domingo, 13 de janeiro de 2008
Como comentarista de longa data da América Latina, estou acostumado com que discordem de mim, mas quando o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, me rotulou de “inimigo da revolução” em rede nacional, fiquei surpreso. Nunca imaginei que Chávez mencionaria meu nome seis vezes num discurso irado, acusando a mim e a outros “grandes intelectuais” de minar seus programas esquerdistas.
Também não imaginei que seria demonizado por autoridades aparentemente menos radicais da América Latina e seus amigos no mundo empresarial. Mas a publicação da edição em espanhol de meu novo livro sobre os males da América Latina, Saving the Americas, transformou-me num saco de pancadas de gente de todo o espectro político. Meu pecado foi argumentar que a América Latina está ficando para trás num momento em que a região, rica em commodities, está passando por seu maior surto de crescimento em décadas.
Obviamente, recebi comentários muito mais agradáveis do presidente da Costa Rica, Óscar Arias, vencedor do Prêmio Nobel, e do ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. O elogio deles, porém, foi ofuscado por aqueles que me acusam de ser estraga-prazeres.
O que provocou a agitação, que acabou ajudando a vender mais de 200 mil exemplares da edição em espanhol? Basicamente, a minha constatação de que a região não consegue ver que está ficando para trás do restante do mundo em desenvolvimento.
Certamente, os governos latino-americanos e as instituições financeiras internacionais têm boas razões para celebrar o momento atual. Segundo a ONU, a economia da região apresenta seu melhor desempenho em 40 anos. Alguns países, como a Venezuela e a Argentina, crescem num ritmo de 9% ao ano.
Uma quantia recorde de US$ 65 bilhões anuais está fluindo para casa em remessas dos migrantes latino-americanos que estão nos EUA e na Europa, proporcionando uma nova fonte de renda para milhões de pobres da região. E os preços estratosféricos do petróleo, da soja, do cobre e de outras commodities impulsionaram o valor total das exportações locais.
Não é de surpreender que os líderes latino-americanos estejam exultantes. Segundo Hugo Chávez, seu país não está crescendo apenas economicamente, mas “social, moral e até espiritualmente”. O ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner costumava dizer que o mundo inteiro estava maravilhado com a impressionante recuperação econômica argentina. Quando foi presidente do México, Vicente Fox assegurou que o país crescia “como uma locomotiva”.
O único problema é que a América Latina está crescendo economicamente quase exclusivamente graças a fatores externos, como a expansão da economia mundial e os altos preços de commodities, não porque tenha colocado a casa em ordem. E esses surtos externos de crescimento não vão durar para sempre.
Qual foi a minha heresia? Enquanto os líderes latino-americanos exibiam seu crescimento, argumentei que essa teoria de que a região está entrando numa nova era de prosperidade não passa de um conto de fadas. Por isso, o título de meu livro em espanhol é Cuentos Chinos e em português, Contos-do-Vigário.
A economia da América Latina tem se expandido num ritmo de 5% nos últimos 5 anos, mas a China cresce 10% há quase 30 anos. Os índices de crescimento da Índia são de 8% há uma década e os da Europa Oriental, de 6%. Na realidade, em comparação com outras partes do mundo em desenvolvimento, a economia da América Latina está ficando para trás.
Se você considerar a redução da pobreza, o contraste é ainda mais gritante. Enquanto na Ásia a parcela da população vivendo na pobreza caiu de 50% em 1970 para 19% hoje, na América Latina, no mesmo período, a redução foi de 43% para 36%, segundo a ONU.
FALTA DE PRAGMATISMO
Portanto, eu pergunto: o que é que os asiáticos estão fazendo que os latino-americanos não estão? Para começar, os países asiáticos são guiados pelo pragmatismo e pensam no futuro, enquanto os latino-americanos se norteiam pela ideologia e são obcecados pelo passado.
Pouco depois de chegar a Pequim, numa viagem recente, recebi a informação de que altos funcionários do governo tinham dado boas-vindas a toda a diretoria do McDonald’s. Poucas semanas antes, enquanto viajava pela América Latina, soube que o governo Chávez tinha orgulhosamente anunciado uma suspensão de três dias nas atividades dos restaurantes McDonald’s na Venezuela para dar uma lição nas multinacionais. Ironicamente, enquanto a China comunista está fazendo de tudo para atrair investidores estrangeiros, vários países latino-americanos nominalmente capitalistas parecem estar tentando afugentar os investidores.
Mas a tendência mais perturbadora para a América Latina é sua estagnação nas áreas de educação, ciência e tecnologia. Enquanto asiáticos e europeus orientais estão formando uma mão-de-obra cada vez mais qualificada, a maioria dos países latino-americanos não mudou seus ultrapassados sistemas educacionais.
Para minha surpresa, descobri que na China as crianças das escolas públicas começam a ter aulas de inglês na terceira série – quatro horas por semana. Poucas semanas mais tarde, perguntei ao ministro da Educação do México em que série os alunos de escolas públicas mexicanas começam a estudar inglês. A resposta: na sétima série, duas horas por semana.
Esse fato chocante é apenas um indicador do desafio educacional da América Latina. Entre outros que cito no livro, estão os seguintes:
1) Muitos latino-americanos acreditam que suas grandes universidades estatais são excelentes, mas na realidade elas são medíocres. Na classificação do jornal londrino The Times das 200 melhores universidades do mundo constam apenas três latino-americanas – e bem no fim da lista: a Universidade de São Paulo (178º lugar), a Universidade de Campinas (179º lugar) e a Universidade Nacional Autônoma do México (195º lugar). Cerca de uma dezena de universidades da China, Cingapura e Coréia do Sul ocupam lugares bem melhores no ranking.
2) À medida que o número de alunos asiáticos nas faculdades dos EUA aumenta, o número de latino-americanos cai. A Índia tem 84 mil estudantes em faculdades americanas; a China, 68 mil; a Coréia do Sul, 62 mil. E a porcentagem de alunos asiáticos subiu 5% em 2006. Já o México tem apenas 14 mil alunos nas faculdades americanas. O Brasil tem 7 mil e a Venezuela, 4.500. Além disso, o número de estudantes latino-americanos caiu 0,3% no ano passado.
3) Enquanto os países asiáticos e do Leste Europeu estão produzindo engenheiros e cientistas em massa, a América Latina produz um grande número de psicólogos, sociólogos e cientistas políticos.
4) No mais recente Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, um teste padronizado que mede a proficiência em leitura, matemática e ciências de adolescentes de 15 anos, as notas dos países latino-americanos ficaram entre as mais baixo do mundo.
5) Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, somente 1% de todo o investimento mundial em pesquisa e desenvolvimento é feito na América Latina.
Juntos, os 32 países da região gastam US$ 11 bilhões ao ano em pesquisa e desenvolvimento – menos que os US$ 12 bilhões gastos só pela Coréia do Sul. Por que tudo isso é importante? Porque numa economia baseada no conhecimento, como a de hoje, não são as matérias-primas que fazem você rico, mas os serviços, o marketing e os cérebros. Meu exemplo favorito: de cada xícara de café plantado na América Latina que os consumidores compram nos EUA, menos de 3% do preço vão para os agricultores da região. Os 97% restantes vão para aqueles que trabalham com engenharia genética, processamento, desenvolvimento da marca e outras atividades baseadas no conhecimento que ajudam a produzir uma xícara de café.
SINAIS POSITIVOS
A despeito dessas estatísticas deprimentes, ainda estou otimista em relação à América Latina. Também podem ser percebidas na região várias tendências positivas, como o avanço da democracia e a maior estabilidade política e econômica.
Brasil, México, Chile, Colômbia e Peru, entre outros, estão rompendo com a antiga praga latino-americana das políticas radicais, que resultam em instabilidade, fuga de capitais e pobreza.
Esses e outros países têm apostado na continuidade econômica, que está começando a impulsionar os investimentos internos e estrangeiros. Em vários casos, tal decisão tem sido tomada por uma nova linhagem de governos esquerdistas economicamente responsáveis.
É verdade que autoridades dos EUA, assim como a maioria de nós na mídia, se concentram em Chávez e em seus aliados na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, que ganham as manchetes com suas declarações em favor da revolução socialista. Mas a Venezuela e seus amigos respondem por apenas 8% do Produto Interno Bruto da América Latina. A verdadeira história da região está sendo escrita em outras partes – e ainda poderá ter um final feliz.
*Andrés Oppenheimer é colunista do Miami Herald e autor do livro “Saving the Americas: The Dangerous Decline of Latin America and What the U.S. Must Do?” (No Brasil, Contos-do-Vigário, Editora Record).
Na rabeira dos BRICs
Posted by Marcus Mayer in BRICs, Brasil on August 22nd, 2007
O calhambeque
por Marcus Mayer
Exclusivo para o Blog
Nossa veemente defesa dos princípios liberais não ocorre por simples apego ideológico. Países como Estônia e Irlanda destacam-se na União Européia pela prosperidade que estão alcançando. A abertura comercial do Chile está servindo de modelo para Colômbia e Peru, conforme destacamos em alguns blocos de notícias das últimas colunas Weekly News e no “especial” Colômbia, que extraímos da revista Veja, e publicamos no blog.
De contrapartida, nossa crítica – também veemente – ao governo Lula da Silva fundamenta-se nas mais distintas razões. Além da corrupção endêmica à qual subjugou o País, a gestão da economia e da administração pública condena a Nação a manter um perfil social brutalmente desigual.
O único meio viável para o Brasil deixar de apresentar índices sociais vergonhosos é através de um verdadeiro crescimento econômico, que poderia ser mais rapidamente alcançado através da adoção de práticas liberais: privatizações, acordos comerciais bilaterais, desregulamentação e, principalmente, desoneração do setor produtivo.
A opção do governo, contudo, é pelo aparelhamento do estado. Para bancar o apparatchik petista há necessidade de uma elevada arrecadação de impostos – no primeiro semestre de 2007 houve aumento de 10,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior, registrando-se novo recorde – , que beneficia os “amigos do Planalto”. E quem paga essa elevadíssima conta é, com muita dor, a classe média.
Não há eficiência nos investimentos e a condução do famoso PAC – Plano de Aceleração do Crescimento – parece piada de humor negro, tal a incompetência na aplicação dos recursos. Para calar os eleitores e manter a popularidade do Presidente elevada, trocam-se votos e manifestações de simpatia por “esmolas”: são 45,8 milhões de brasileiros envolvidos com o recebimento de recursos do programa Bolsa Família.
TURBULÊNCIA INTERNACIONAL
“Planalto já teme freada no crescimento”. Essa foi a manchete de primeira página do caderno “Economia & Negócios”, de O Estado de S.Paulo, no último domingo. E o texto dizia: “A equipe econômica já avisou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o período de instabilidade provocado pela turbulência internacional que afetou duramente os mercados nas últimas semanas pode ser longo.”
E continuava: “A grande preocupação do Palácio do Planalto, agora, é com o impacto desse intenso vaivém sobre o crescimento econômico do País, principalmente a partir de 2008. Para este ano, os economistas consideram que a expansão já está consolidada e ficará na casa de 5%. Em caso de uma piora da situação, o governo estuda reduzir o ritmo de liberação de dinheiro para os ministérios.”
Em outro trecho lia-se: “Os mais otimistas acreditam que as economias emergentes – especialmente os gigantes populacionais da Ásia e os chamados BRICs (grupo que inclui Brasil, Rússia, Índia e China) – passarão a ser os protagonistas do consumo mundial.”
Seria isso possível, diante do triste retrato do Brasil, muito bem estampado, na capa da revista Latin Finance , sob o título “Falling Behind” ?
Enquanto os demais BRICs estão a bordo de máquinas de Fórmula 1, Lula da Silva, um piloto embriagado pelo poder, pilota um calhambeque, levando para passear sua turma… Cansei, sim!
Na seqüência, republicaremos a série “Brasil no Mundo”, para que o leitor possa observar os números da triste realidade brasileira, expressa em números – e que teria saída, não fosse a brutal ineficiência e interferência do estado na economia.
O Brasil no Mundo > Parte I <
Posted by Marcus Mayer in BRICs, Brasil, Economia on May 16th, 2007
O tamanho de nossa riqueza
Parte 1 – PIB (Produto Interno Bruto)
O Brasil é atualmente a décima maior economia mundial (ver tabela). Essa posição é definida pelo PIB (Produto Interno Bruto), que abrange todos os agregados macroeconômicos e traduz o valor monetário dos bens e serviços (empresas, instituições – com e sem fins lucrativos -, profissionais liberais etc.) produzidos na economia, durante um determinado período de tempo.
Conforme artigo da revista britânica The Economist, “Land of promise”, traduzido neste blog, o PIB do Brasil teve, nos últimos anos, um crescimento (3,7%, em 2006) muito menor que os demais “BRICs” (qualificação criada pelo banco de investimento Goldman Sachs) –, Rússia, Índia e China. Graças ao Haiti, o país mais pobre das Américas, e 135º no ranking mundial do PIB, o Brasil não ficou em último lugar no quesito crescimento.
Clique aqui para acessar o artigo da revista The Economist
No início dos anos 1990, a China (4ª potência econômica, atrás dos Estados Unidos, Japão e Alemanha) ultrapassou, pela última vez, o Brasil – quando o país ainda era a 9ª maior economia do globo. Nos anos recentes, a pior posição ocupada pelo Brasil foi a 13ª, em 2004.
A melhora no ranking deve-se à valorização do real frente ao dólar, considerando-se o cálculo do PIB pela cotação, em dólares, da moeda corrente (Gross domestic product – GDP, current prices, U.S. dollars).
Segundo estimativas do Fundo Montenário Internacional, a Rússia (outro BRIC) ultrapassará o Brasil, em 2008. Não tardará muito para que a Índia, a Coréia do Sul, o México e a Austrália façam o mesmo, conduzindo a economia brasileira para a 15ª posição (e última dos BRICs) entre as maiores economias.
Nos próximos dias abordaremos a posição do Brasil no ranking do PPP (Purchasing Power Parity), que determina o poder de compra da população; do índice GINI, que mede a desigualdade social; e do IDH, que avalia a qualidade de vida.
The Economist: Land of promise
Posted by Marcus Mayer in BRICs, Brasil, Economia on April 13th, 2007
A respeitada revista britânica The Economist, em sua edição de 12 de abril, traz uma reportagem especial sobre o Brasil, com o título Land of promise, que segue – por mim traduzida – abaixo. A matéria é muito interessante e abrangente. Leve-se em consideração a percepção que o exterior tem do Brasil no momento atual. Vale muito a pena dedicar algum tempo para ler a íntegra do texto. (Clique sobre o logo da revista para ler a matéria em inglês)
ANÁLISE: BRASIL
Terra da promessa
The Economist | 12 de abril de 2007
Tradução: Marcus Mayer
Na costa direita do largo canal que constitui o porto de Santos, o maior do Brasil, o Orange Wave aguarda uma carga de suco de laranja com destino a New Jersey. O North King, de origem panamenha, está sendo carregado da soja cultivada em algum lugar entre o sul temperado do Brasil e as savanas do centro-oeste. Além disso, impressionantes filas de carros aguardam pelo seu navio. Os terminais de carga, antes de propriedade do estado, expõem agora a heráldica corporativa: os logotipos de COSAN, produtor de etanol e açúcar; Bunge, comerciante de comida global; e America’s Dow Chemical. No ano passado, Santos quebrou o seu recorde de exportação de café – a commodity que fez nascer o porto, no século 19 – registrado anteriormente em 1909.
A ‘majestade Vitoriana’ de navios ancorados não permite desconfiar dos problemas que o transporte de carga enfrenta no caminho para e de Santos, responsável por 27% do comércio internacional do Brasil. No caso da soja os problemas começam no campo, onde o armazenamento deficiente força cultivadores a despachá-la diretamente ao porto, apesar do preço. Em seguida, enfrenta uma viagem acidentada em estradas esburacadas – 80% da carga chega a Santos em caminhões e não por estrada de ferro. A privatização e o melhor gerenciamento dos terminais conduziu a uma maior eficiência do porto, mas os navios ainda precisam aguardar em alto mar antes de adentrar o canal, que é 2m mais raso do que o recomendável. Os órgãos estatais reguladores para o meio ambiente estão retendo a permissão para aprofundá-lo. Os custos do transporte consomem quase 13% do PIB brasileiro, cinco pontos percentuais acima dos Estados Unidos, segundo Paulo Fleury da COPPEAD, uma escola de negócios do Rio de Janeiro. Essa é somente uma pequena parte da carga à qual os businessmen se referem desesperadamente como custo Brasil.
A larga capacidade de produção e a frustração se somam no Brasil nesses dias. O país explode em mercadorias cobiçadas pelas economias crescentes da Ásia – da soja ao minério. Nenhum outro país está mais bem qualificado para atender às demandas do entusiasmo global por biocombustíveis. Ainda assim, o Brasil recusa-se a crescer de acordo com as expectativas de sua população de 188 milhões. Desde o fim do “milagre econômico” dos anos 1960 e 70, quando o país foi o segundo a apresentar o mais rápido crescimento do mundo entre as grandes economias, o Brasil estagnou (ver diagrama 1). Durante os últimos quatro anos, enquanto o conjunto de países em desenvolvimento cresceu em média 7.3%, o Brasil estancou em 3.3%.
Em 2003 o banco de investimento Goldman Sachs qualificou o Brasil, ao lado da Rússia, da Índia e da China, como um dos quatro “BRICs” – países em desenvolvimento que compartilhariam o domínio da economia mundial antes de 2050. O Brasil teve um crescimento muito menor que os demais, levando alguns brasileiros a indagarem se o “B” seria excluído do grupo. A Coréia do Sul ultrapassou o Brasil em renda per capita nos anos 1980; pode não demorar muito para que a China e a Índia façam o mesmo.
Os brasileiros também têm problemas “não-econômicos” com os quais se preocuparem. Em sua primeira oportunidade no poder, o Partido dos Trabalhadores (PT) do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – de quem se aguardava o combate contra a corrupção – orquestrou um esquema arcaico de suborno de congressistas em troca de votos, conhecido como “mensalão” (pagamento de mesada). O Congresso que encerrou sua legislatura de quatro anos em dezembro é largamente apontado como “o pior da história”. No ano passado as duas maiores cidades do Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro, foram aterrorizadas por bandos que atuam do interior do sistema prisional. A educação, possivelmente o pior defeito do Brasil, em vez de melhorar, tem piorado. Desde o ano passado, quando ocorreu o choque no ar entre um avião de passageiros e um jato executivo, as viagens aéreas se tornaram um tormento. O Brasil está “desmoronando em partes”, lamentou-se Lya Luft, colunista de Veja, a maior revista de notícias, no ano passado.
Qual é o problema?
A maioria dos brasileiros parece não ter noção. O presidente Lula ganhou a eleição de outubro passado de forma estrondosa, basicamente em virtude do assistencialismo aos pobres. A qualidade de vida está sendo melhorada, graças em parte às esmolas do governo federal. A desigualdade de renda, da qual o Brasil sofre mais do que a maioria dos países começou, finalmente, a encolher-se.
O mesmo é verdadeiro no que concerne à inflação, mantida às custas de altas taxas de juros. A introdução do real como moeda brasileira em 1994 encerrou décadas de alta inflação. Muitos observadores temeram que Lula a reacendesse quando foi eleito presidente pela primeira vez em 2002. O seu PT fez oposição ao Plano Real e as taxas de risco país dispararam com a perspectiva de eleição de Lula. Mas ele compreendeu que a inflação afetava mais os pobres. Desafiando os seus companheiros, entrincheirou a estabilidade, fielmente apoiada no tripé da política de seu predecessor e inimigo político, Fernando Henrique Cardoso: superávit primário elevado para reduzir a dívida em relação ao PIB, taxa de câmbio flutuante e metas de inflação.
Auxiliado pelo entusiasmo global por produtos brasileiros e pela estabilidade financeira, a dupla Cardoso-Lula conquistou um milagre econômico de tipo diferente. A inflação, no ano passado, foi de somente 3%, abaixo da meta de 4.5% estabelecida pelo Banco Central. Os mercados esperam que ela permaneça abaixo da meta neste ano. As taxas de juros reais estão em seu nível mais baixo desde 2001. O risco de uma crise externa interferir na economia doméstica – o que muitas vezes ocorreu durante os anos de 1990 – diminuiu. As exportações e o superávit da balança comercial dispararam (ver o diagrama 2), empurrando as reservas de divisas acima dos 100 bilhões de dólares. Quando o Brasil ficou independente em 1822 a Grã-Bretanha insistiu que ele assumisse as dívidas da coroa portuguesa. Agora o governo do Brasil é um credor internacional. A conquista de um rating de investment grade é, provavelmente, só uma questão de tempo. Quando Lula terminar o seu segundo mandato em 2010 o Brasil terá gozado “de 16 anos de estabilidade e predição”, diz Mailson da Nóbrega, um ex-ministro da Fazenda que agora dirige a consultoria Tendências. Este é um importante e muitas vezes subestimado desconto sobre o “custo Brasil”.
De algum modo o Brasil é o mais estável dos BRICs. Diferentemente da China e da Rússia ele é uma democracia genuína; e diferentemente da Índia ele não tem nenhum conflito sério com os seus vizinhos. Ele é o único BRIC que não dispõe de uma bomba atômica. O “Índice de Liberdade Econômica” elaborado pela Fundação Heritage, e que inclui fatores como a proteção aos direitos de propriedade e livre comércio, classifica o Brasil como economia “moderadamente aberta”, acima dos outro BRICs, em grande parte “fechados”. Uma das razões principais para que o crescimento do Brasil tenha sido mais lento do que o da China e o da Índia é que o país é mais rico e mais urbanizado.
As expectativas futuras persistem causando descontentamento porque o Brasil está sempre em um campo de batalha entre o avanço e a inércia. Desde a independência, que foi proclamada pelo filho do rei português, o Brasil foi fazendo remendo sobre remendo para modernizar-se em vez de livrar-se de velhos padrões e recomeçar definitivamente do novo. A constituição de 1988, que solidificou a democracia depois de 20 anos de ditadura militar, não aboliu a cultura da “cordialidade”, que em política significa primazia de gentilezas pessoais em contraste com o respeito às regras. “As liberdades e os direitos eleitorais estão consolidados”, diz o antigo presidente Cardoso, “mas falta cidadania, em relação ao respeito à lei. A democracia significa isto, também”.
Muito, demais
A constituição criou direitos em demasia – de estabilidade de servidores públicos, de permitir que governos estaduais criem taxas sobre receitas, de excessivos privilégios aos cidadãos, à transferências do governo – que o Brasil mal pode executar. Esses direitos ajudam a explicar porque as taxas de juros reais permanecem entre as mais altas do mundo, porque o investimento público em estradas, portos e outras áreas da infra-estrutura é lento, e porque a carga tributária é de um Welfare State europeu rico e não de uma economia jovem em desenvolvimento.
Conseqüentemente, o Brasil permanece no meio de uma metamorfose lenta na sua economia, na sua sociedade e no seu sistema de governo. “O Brasil contemporâneo é um híbrido entre duas modalidades: um desigual e hierárquico, outro universal e igualitário”, argumenta Jacqueline Muniz, antropóloga do Rio de Janeiro. O legalismo rígido convive com a ilegalidade exuberante, e um setor privado vibrante coexiste com um estado esclerosado. O presidente Lula, que se apresentou como uma alternativa aos oligarcas antiquados, agora governa com a sua ajuda. Poucos desses modernizadores não são manchados pelo seu passado.
Embora o progresso seja lento, as instituições do Brasil estão bastante firmes agora para deixá-lo razoavelmente seguro. O Goldman Sachs recentemente reafirmou a posição BRIC do país. O crescimento econômico pode superar os 4% neste ano. Quando as estimativas de crescimento do PIB foram revistas em março, o Brasil descobriu que ficou mais rico e menos endividado do que imaginava. Ele ainda pode fazer melhor. Mas isto necessitaria de mais discernimento de Lula, tão importante como a sua conversão à inflação baixa: que o obstáculo principal para progredir é o próprio estado.
Latin Finance: Falling Behind
Posted by Marcus Mayer in BRICs, Economia on April 10th, 2007
Brazil is the only sub-investment grade BRIC country. It risks falling even further behind if the government neglects urgent fiscal reforms required to power economic growth.
Brazil has basked in the glory of its association with Russia, India and China, the fast growing emerging economies that join it in the BRIC bloc. But by many measures it is falling far behind. When Goldman Sachs coined the phrase BRIC in 2003, the idea was that they could outstrip the G6 economies by 2050, both financially and politically. But as other BRICs take off, Brazil is looking increasingly like a low-tech laggard that cannot grow itself out of a debt overhang.
”Brazil has been riding the wave of global growth and a great world environment,” says Edgardo Sternberg, emerging markets debt strategist at Loomis Sayles, which manages $88 billion in equity and debt assets worldwide. “Beyond that, little has been done. When that environment disappears, I want to see how well Brazil does.”
The country is coasting on the commodity rally and its private sector is thriving despite one of the most hostile environments in the world. But Brazil risks squandering a unique opportunity to become a world player if the Lula administration fails to match impressive first term fiscal prudence with equally ambitious fiscal reform and investment in infrastructure and education.
“Macroeconomic and financial instability have been reduced in a very significant and structural way, but the conditions for growth to accelerate to a new plateau have not been created,” says Alberto Ramos, senior Latin America economist at Goldman Sachs.
Ramos flags increased public spending through social transfer projects as a drag on Brazil’s projected 3.5% growth for 2007. China, India and Russia should register 9.8%, 8% and 7% economic growth in 2007, according to Goldman. Brazil has averaged just 2.6% growth since 2000, compared to 9.56% for China, 6.65% for India and 6.77% for Russia, Goldman data shows. And even though Brazil has the third largest economy by GDP, it has the second highest ratio of debt to GDP of the BRIC countries, the bulk of which is short-dated, keeping it at the junk rating.







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