Posts Tagged Dalits
Dalits e preconceito
Posted by Marcus Mayer in BRICs, Índia, Mundo, Sociologia on March 15th, 2009

A revista britânica The Economist, por meio de seu breve artigo “Soup, sex and sociology”, que traduzi abaixo, oferece a chance de abordar um assunto sobre o qual há tempos desejava discorrer. Com relativa frequência nos defrontamos com pessoas que se consideram intelectualmente muito superiores às demais (mas certamente não o são). Costumam exteriorizar um injustificável preconceito em relação àquilo que estranhamente associam a uma cultura dirigida aos menos intelectualizados.
Naturalmente, não pretendo aqui fazer apologia à futilidade nem generalizar. Todavia, gostaria de reduzir um pouco a altura do pedestal ao qual se agarram esses tipos arrogantes. O texto da Economist é somente uma isca, pois o “neointelectual” não costuma perder nenhuma de suas edições.
Um nicho muito comum para encontrar exemplares dessa espécie é a Universidade de São Paulo. Pelo fato de serem professores ou estudantes dessa renomada instituição, é comum observar em suas falas ou textos um padrão excepcional de prepotência.
Ouse citar, durante conversa com um desses, uma entrevista que tenha lido na revista Veja, um editorial do Estadão ou um eventual programa transmitido pela TV Globo. Irão vislumbrá-lo como tendo confessado plena submissão aos meios de comunicação dirigidos aos ignorantes. Se quiser se dar bem, elogie o último pronunciamento de Hugo Chávez na TeleSur.
Mas não é preciso ir à USP para encontrar os tipos. Boa parcela de bloggers também se sente assim, adotando esse jeito, digamos, superior. Leia um blog político no portal iG e entenderá do que se trata.
A mesma arrogância poderia ser observada se um aluno de curso pré-vestibular questionasse um professor de literatura sobre uma obra de Paulo Coelho. O coitado seria imediatamente rechaçado pelo “culto mestre”. Também não seria viável recorrer a um texto de autoajuda, sob risco de ser taxado de otário. E gostar de futebol, ou pior, assumir-se flamenguista ou corinthiano? Isso só pode ser mesmo peculiar ao povão ignorante.
Por que tanto preconceito? Esses sentimentos formados a priori, sem maior fundamento, são típicos do “pseudointelectual”. Que leia a “Fenomenologia do Espírito”, de Hegel, antes de dar palpites toscos.
Pobres mortais!
Os intocáveis da Índiapor Marcus Mayer*
exclusivo para o Blog | Sábado, 21 de março de 2009
O preconceito é certamente um dos piores atributos da espécie humana. É uma característica exclusiva encontrada entre aqueles que, no reino animal, são considerados superiores, graças à virtuosa faculdade da razão. Estaria certo Rousseau ao definir o homem no estado de natureza como “bom selvagem” e, consequentemente, mais feliz que vivendo em sociedade?
Por maiores que sejam as críticas que se apresentem diante da baixa qualidade de programas televisivos dirigidos às massas, as novelas da TV Globo têm contribuído para o enfrentamento do preconceito social.
Convívio com portadores do vírus HIV, atenção para com viciados em drogas, relações homossexuais, respeito por mais velhos, casamentos inter-raciais, importância do uso de preservativos, entre tantos outros temas-tabu, quando não vislumbrados com acentuado preconceito, já fizeram parte de muitos enredos dessas telenovelas.
Momento no qual tanto se fala sobre os BRICs (sigla que reúne as chamadas economias emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China), a Globo apresenta ao Brasil um tema de relevância internacional, sobretudo por se tratar de um problema atual que ocorre no segundo país mais populoso do mundo, em sua novela “Caminho das Índias”.
DALIT – Aproximadamente 194 milhões de cidadãos (World Factbook, 2009), número quase equivalente ao da população do Brasil, pertence ao grupo social dos chamados Intocáveis, na Índia. São pessoas maculadas pelo nascimento, em um ultrapassado sistema de castas que os considera impuros e inferiores a um ser humano(!). Eles se autodenominam dalits.
Para entender essa estranha realidade é necessário percorrer um pouco a cultura híndi. O sistema de castas da Índia é uma de suas características mais idiossincráticas. Foi implantado por volta de 1.600 antes da Era Comum, por uma classe de sacerdotes, os Brahmin da Dharma (conceito utilizado para definir a verdade universal no hinduísmo). Atribui-se a Manu, sobrevivente do mítico dilúvio, a fundação da antiga sociedade híndi sob estes moldes mitológicos.
A tradição classifica as pessoas em quatro “varnas” (categorias), conforme as partes do corpo da divindade védica, Purusha, de quem cada um dos grupos foi criado. De acordo com a antiga história hinduísta, varna e sistema de castas não representam a mesma coisa, embora estejam diretamente relacionados. As partes do corpo de Purusha definem a varna, que determinará a classe social designada para questões como com quem podem se casar e quais profissões podem exercer. Originalmente, o sistema baseava-se nas classes sociais e não na condição determinada pelo nascimento, o que permitia uma certa mobilidade.
O conceito hindu posterior, baseado nos textos denominados Varnashrama dharma, fundamentou o sistema de castas determinado pelo nascimento. Não é, de acordo com as crenças, considerado um sistema artificial, mas referente a classificações naturais, aplicáveis a todas as sociedades humanas. Os indivíduos teriam tendências inatas diferentes para a execução de trabalhos que exigissem determinadas qualidades pessoais.
Assim também, existiriam fases naturais na vida, “ashrans”, para a execução de certas atividades. O hinduísmo argumenta que os indivíduos melhor explorariam os seus potenciais considerando tais planos naturais. Por essa razão, a sociedade deve ser “estruturada” e “organizada”, fundamentando a tese de que cada varna e o ashram teriam o seu próprio Dharma pré-estabelecido.
Os conceitos-chave do sistema de castas indiano, portanto, apresentam-se da seguinte forma: Varnashrama-dharma – deveres a serem executados segundo o sistema de quatro varnas (as divisões sociais) e quatro ashrans (as etapas na vida). Quatro varnas – brâmanes (sacerdotes, professores e intelectuais), kshatriyas (polícia, exército e administração), vaishyas (agricultores, comerciantes e pessoas de negócios), shudras (artesãos e empregados domésticos). Quatro ashrans – vida estudantil, vida doméstica (incluindo o casamento), retiro e renúncia.
O atento leitor certamente observou que toda esta descrição em momento algum abordou os dalits. E é exatamente neste particular que se justifica, de acordo com a tradição hinduísta, a sua inferioridade e a sua exclusão social.
No mais provável intuito de manter a superioridade, os brâmanes fundamentaram o sistema de castas mais recente, por meio de analogia com o corpo da divindade Purusha. Eles representariam a cabeça da sociedade (originam-se da boca e dos olhos), fornecendo a visão espiritual da sociedade e a instrução das pessoas. Os braços, utilizados para defender o corpo originaram os kshatriya, cuja função é proteger a sociedade. O dever principal do vaishya é a nutrição material (foram criados do ventre e das coxas de Purusha), e os shudra (parte inferior das pernas) apóiam todas as outras seções sociais.
E, novamente, aonde se encontram os dalits? Não, eles não estão inseridos em nenhuma sub-casta. Pertencem a um grupo que não integra o sistema de varnas, ou seja, não fazem parte da sociedade humana. A melhor analogia para definir o dalit é incansavelmente repetida pelo personagem conservador, Opash Ananda, interpretado pelo ator Tony Ramos, na novela Caminho das Índias: “os dalits são a poeira sob os pés de Brahma”.
ÍNDIA ATUAL – Desde 1950, a Constituição da Índia proibiu a discriminação contra os dalits. Apesar disso, o preconceito está presente, principalmente nas áreas rurais. Por serem considerados “impuros de nascimento”, esses chamados intocáveis executam os trabalhos mais humildes e são pessimamente remunerados. Nas cidades, os dalits trabalham como varredores de rua, limpadores de latrinas e de animais mortos. No interior do país, são empregados agrícolas assolados pela pobreza extrema, pelo analfabetismo e pela opressão.
A Índia, maior democracia do planeta, conta atualmente com 1,17 bilhão de habitantes (World Factbook, 2009). Os dalits correspondem a 16,6% da população total do país. De acordo com dados oficiais e de organizações não-governamentais, 80% dos dalits vivem nas áreas rurais e 86% não possuem nenhuma propriedade. Do total, 60% executam trabalhos eventuais, ou seja, não têm um emprego fixo. Enquanto a taxa total de analfabetismo na Índia é de 39%, entre os dalits ela atinge 63%. As piores estatísticas, contudo, referem-se à violência: a cada 18 minutos, essa gente é vitimada por um crime. E, diariamente, 3 mulheres dalits são estupradas.
BOLLYWOOD – Apesar das produções da indústria cinematográfica de Mumbay já privilegiarem algumas tramas que denunciam o preconceito de castas na Índia, não há em Bollywood nenhum ator ou atriz dalit. O internacionalmente aclamado diretor Nagesh Kukunoor está produzindo um filme intitulado “Ye Hausla”, no qual são representadas as situações e as aflições de uma mulher dalit no Rajastão (a mesma província na qual é conduzido o enredo de “Caminho das Índias”). A atriz Sameera Reddy (foto) será a protagonista do filme.
Na política, os dalits contam com uma representante de destaque. Em 2007, Kumari Mayawati foi empossada pela quarta vez como governadora da província de Uttar Pradesh, localizada no norte da Índia. Nascida em Nova Delhi, Mayawati é exemplo raro de dalit que conseguiu se formar Bacharel em Direito e em Educação.
A democracia oferece o melhor caminho para que a representação dos dalits na política encontre meios de aperfeiçoamento das leis e da conduta de todos os cidadãos indianos. E a educação é a melhor arma para livrar as populações da ignorância e combater dogmas religiosos tão ultrapassados como os que impuseram o sistema de castas.
Esperamos que um dia os dalits possam beber dos mesmos poços, ingressar nos mesmos templos, usar sapatos na presença de uma casta superior e beber das mesmas xícaras nas tradicionais lojas de chai (chá).
space
NOTA IMPORTANTE: Alguns representantes da comunidade indiana no Brasil têm manifestado desacordo com o que afirmam ser exageros de Glória Perez, autora de “Caminho das Índias”, no tocante à real situação dos dalits. É verdade que o preconceito tenha diminuído sensivelmente nos centros urbanos mais desenvolvidos. Todavia, as informações constantes deste artigo, colhidas de fontes renomadas e fidedignas, apontam para um abismo de desigualdade entre as regiões indianas. Esse quadro não difere muito do brasileiro. Nos centros mais desenvolvidos, tanto no Brasil quanto na Índia, é possível identificar um padrão de vida quase escandinavo, enquanto que nas regiões mais pobres ainda se convive com tragédias sociais em moldes subsaarianos. A desigualdade, acompanhada de suas nefastas consequências, é a propriedade geográfica que mais aproxima o Brasil da Índia.
FONTES DE PESQUISA:
· NATIONAL GEOGRAPHIC: India’s “Untouchables” Face Violence, Discrimination
· DALIT FREEDOM NETWORK – Who are the Dalits?
· DALIT INTERNATIONAL FOUNDATION – Vital statistics about Dalits
· THE WORLD FACTBOOK – India
· THE HEART OF HINDUISM – Dharma: Varnashrama-dharma
Novelas, sexo e sociologia
Da revista The Economist | 12.MAR.2009
Tradução: Marcus Mayer
Mulheres que assistem às novelas têm menos bebês (porém, mais homens)?






Recent Comments