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O câmbio e a carga tributária

dolar_real.jpgNo último dia 11, nosso blog já se adiantava ao abordar a questão da desvalorização do dólar em relação ao real. Os problemas e as soluções apontados em nossa breve análise se reforçam, agora, em editorial do jornal “O Estado de S.Paulo”.

Leia na íntegra o editorial abaixo:


ex_libris.gifO ESTADO DE S.PAULO – NOTAS & INFORMAÇÕES
DOMINGO, 22 DE ABRIL DE 2007 – PÁGINA A3

 O desafio do dólar barato

O governo discute mais um remendo fiscal para socorrer os setores mais prejudicados pela valorização do câmbio. A discussão concentrou-se, nos últimos dias, na idéia de redução de encargos trabalhistas. Num primeiro exame, a proposta parece defensável. As indústrias mais afetadas pelo dólar barato, como as têxteis, de móveis e de calçados, dependem principalmente de insumos nacionais. Algumas importam insumos, mas, de modo geral, são mais dependentes de matérias-primas e bens intermediários produzidos no Brasil.

São geradoras de empregos tanto diretos quanto indiretos. Empresas de outros setores enfrentam o desafio com maior facilidade, aproveitando o real valorizado para importar materiais e componentes. Mantêm, assim, o poder de competição, mas ao custo de substituir empregos no País por empregos no exterior.

Não há nada errado, em princípio, na importação de matérias-primas, bens intermediários e mesmo produtos finais, quando a diferença de custo resulta da maior eficiência do produtor estrangeiro. Mas boa parte da concorrência enfrentada por essas indústrias, em condição de inferioridade, tem origem muito diferente.

Para sobreviver à abertura da economia, nos anos 1990, muitas delas tiveram de investir muito dinheiro e de modernizar equipamentos, processos produtivos e estilos de administração. Dedicaram-se com maior intensidade à exportação e disputaram espaço no mercado internacional, em muitos casos com grande sucesso. Mas começaram a perder fôlego, há algum tempo, em conseqüência da valorização cambial e das condições especiais de competição impostas principalmente pela China.

A valorização do real deixou mais visível uma série de obstáculos que as empresas não podem remover somente com seus meios. Tributos pesados e irracionais, cobrados tanto pela União quanto pelos Estados, são componentes importantes desse conjunto. Além disso, muitas indústrias brasileiras ficam em desvantagem quando se trata do acesso a grandes mercados, como o dos Estados Unidos e o da União Européia. Concorrentes de peso desfrutam de preferências no comércio com as economias mais desenvolvidas.

O governo brasileiro negligenciou a assinatura de acordos com aqueles parceiros e isso faz diferença. O problema de acesso a grandes mercados não é exclusivo do agronegócio. Esse tem sido um dos estímulos para o investimento brasileiro no exterior. Investir fora para ganhar projeção internacional é muito bom. Criar empresas e empregos noutros países porque o governo brasileiro deixou de fazer os acordos necessários é lamentável.

Mas o alívio fiscal para alguns setores e apenas por tempo limitado pode não ser uma boa resposta. Uma pequena desoneração tributária será insuficiente para compensar a desvantagem cambial, mas o governo não pode ir muito longe nessa política. Já se discute uma alteração geral da tributação sobre a folha de salários, defendida pelo ministro do Trabalho. Também não será uma solução simples. Deslocar os tributos da folha de pessoal para o faturamento agravará outro problema: a tributação em cascata.

É difícil conceber uma solução adequada fora de um projeto mais amplo de reforma tributária e, provavelmente, da Previdência. O Brasil tem uma longa experiência de remendos na área de impostos. Cada mudança improvisada tende a resultar em novas distorções.

No entanto, há um problema concreto que o governo não pode, ou pelo menos não deve, menosprezar. A valorização cambial, somada ao contrabando e às dificuldades de acesso aos principais mercados, pode resultar em crises setoriais e no fechamento de milhares de postos de trabalho. Medidas meramente protecionistas também não são a resposta adequada, porque as empresas têm de competir em escala global.

Talvez se encontrem soluções de emergência para alguns setores. Mas será preciso ir muito além. Fala-se muito em políticas de competitividade, mas pouco se tem feito para eliminar as desvantagens que se encontram além dos portões das fábricas e das porteiras das fazendas. Não há outro caminho, quando se pretende manter o câmbio flutuante. Isso é confirmado pela experiência de países muito competitivos.

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Economia brasileira se arrasta

the-wall-street-journal.jpg

Brazil’s economy lumbers on

A economia do Brasil “se arrasta pesadamente”, conforme diz o título da reportagem do conceituado diário americano The Wall Street Journal. Essa opinião se coaduna com aquela expressa na reportagem da revista britânica The Economist, que traduzimos para este blog. (Clique aqui para ler a reportagem)

De acordo com o jornal de Nova York, “a esperança” de que o Brasil empreenda reformas para estimular o crescimento da economia vem diminuindo, desde a posse de “Mr. da Silva”, que prometeu colocar “tempero” numa economia de crescimento lento crônico. Informa ainda que economistas estão “cada vez mais céticos” quanto à capacidade de o presidente atacar as raízes estruturais do “embaçado” crescimento do país.

“Por enquanto, o segundo mandato de “Mr. da Silva” foi marcado por dificuldades que retardaram a formação de sua equipe de governo e por uma crise no controle do espaço aéreo”, constata o The Wall Street Journal.

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Piada de mau gosto

marinha-mercante.gif“A marinha mercante brasileira virou assunto macabro ou piada de mau gosto”, nas palavras do jornalista Joelmir Beting. Transportar mercadorias entre o porto de Recife e Xangai, na China, é mais barato que transportá-las até o porto de Paranaguá (PR), numa distância oito vezes inferior(!).

Eis mais uma demonstração escandalosa do elevado “custo Brasil”, que provém dos exorbitantes impostos e do excesso de regulamentação, entre muitas outras causas. As empresas transportadoras, em virtude da legislação do governo petista, além de arcar com os altíssimos custos dos portos nacionais são obrigadas a comprar navios no Brasil, ao dobro do preço que custariam no exterior, para a navegação de cabotagem.

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Escândalo na Petrossauro

gigante_pre-historico.jpgEm outubro do ano passado, li um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, na coluna de Maílson da Nóbrega, sob o título indagativo: “Existe empresa estatal eficiente?”.

O articulista, ex-ministro da Fazenda, iniciava a sua argumentação da seguinte forma: “por definição, uma empresa estatal não tem a mesma eficiência que exibiria se fosse privada”, e acrescentava, “a sua governança corporativa pode até aproximá-la do padrão de gestão privada, como se vê no mundo desenvolvido, mas isso é muito difícil de acontecer em países como o Brasil”.

Para fugir um pouco das questões teóricas e verificar o empírico, tome-se, por exemplo, o último grande descalabro promovido pela Petrobrás – ou “Petrossauro”, como a tratava o saudoso embaixador e ex-ministro da Fazenda Roberto Campos (foto abaixo): a estatal realizará, conforme publicado na Folha de S.Paulo (ed. 1º/03/ 2007, pág. B10), um aporte de R$ 6 bilhões para zerar o déficit do “Petros”, o fundo de pensão dos funcionários da empresa, com dinheiro público, ou seja, que pertence a todos os brasileiros. Pergunto: o que nós, contribuintes, temos com isso?

roberto_campos.jpgNada de tão escandaloso aconteceria se a Petrossauro fosse uma empresa privada como a Vale do Rio Doce, a Embraer, o Bradesco, a Volkswagen, ou qualquer outra, submetida às normas do mercado. Enquanto os ex-empregados da Varig sofrem com a perda de suas pensões e aposentadorias complementares, causada por má gestão do falido fundo de pensão “Aerus” – destaque-se que a razão da falência foi uma administração nos moldes de empresa estatal – os empregados da Petrossauro dormem tranqüilos.

Continuo indagando: é justo que o dinheiro de nossos impostos seja destinado ao financiamento da aposentadoria de milhares de funcionários de empresas estatais?

Os fundos de pensão e os dinossauros estatais, típicos antros de corrupção, têm as suas respectivas diretorias substituídas a cada troca de governo. Isso gera onerosas mudanças administrativas. As contas de publicidade são enormes e jamais somos perguntados se concordamos em pagar por elas. Aliás, quem aprova os gastos e investimentos desses animais pré-históricos da administração pública são os digníssimos congressistas. Assim, é natural que boa parte dos recursos desapareçam em “valeriodutos”e outros esquemas de corrupção.

A contrapartida aos malefícios do estatismo é a privatização. Destaquem-se somente os exemplos da Vale do Rio Doce e da Embraer, para não falar do salto de eficiência que ocorreu no setor de telefonia.

Vale relembrar o que deixou registrado o ex-ministro Maílson da Nóbrega: “dizer que uma empresa estatal pode ser eficiente como uma empresa privada é um disparate”.

MEMÓRIA CURTA
Rombo ‘escandaloso’ nos fundos de pensão

fundos_de_pensao.jpgOs 13 fundos de pensão que foram investigados pela extinta CPMI dos Correios tiveram prejuízos, entre 2000 e 2005, de cerca de R$ 730 milhões em operações realizadas no mercado de derivativos da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). (ver tabela)

O mais atingido foi o Prece (da Companhia de Água e Esgotos do Rio de Janeiro), com perdas que chegavam a R$ 309 milhões. Os dados fizeram parte do parecer que, na época, foi apresentado pelo sub-relator de Fundos de Pensão da Comissão, deputado ACM Neto (DEM-BA).

Para encerrar, registre-se a pergunta: os diretores desses “fundos de corrupção” ainda estão soltos? Ou seria melhor reformular a pergunta e questionar se algum desses administradores irresponsáveis, eventualmente, corre algum risco de ser responsabilizado criminalmente pela má gestão dos recursos dos funcionários? – Não precisamos quebrar a cabeça para responder.

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The Economist: Land of promise

A respeitada revista britânica The Economist, em sua edição de 12 de abril, traz uma reportagem especial sobre o Brasil, com o título Land of promise, que segue – por mim traduzida – abaixo. A matéria é muito interessante e abrangente. Leve-se em consideração a percepção que o exterior tem do Brasil no momento atual. Vale muito a pena dedicar algum tempo para ler a íntegra do texto. (Clique sobre o logo da revista para ler a matéria em inglês)


logo_the_economist.gifANÁLISE: BRASIL
Terra da promessa
The Economist | 12 de abril de 2007
Tradução: Marcus Mayer

O Brasil é grande, democrático, estável e rico em recursos.
Então, por que não está muito melhor?

Na costa direita do largo canal que constitui o porto de Santos, o maior do Brasil, o Orange Wave aguarda uma carga de suco de laranja com destino a New Jersey. O North King, de origem panamenha, está sendo carregado da soja cultivada em algum lugar entre o sul temperado do Brasil e as savanas do centro-oeste. Além disso, impressionantes filas de carros aguardam pelo seu navio. Os terminais de carga, antes de propriedade do estado, expõem agora a heráldica corporativa: os logotipos de COSAN, produtor de etanol e açúcar; Bunge, comerciante de comida global; e America’s Dow Chemical. No ano passado, Santos quebrou o seu recorde de exportação de café – a commodity que fez nascer o porto, no século 19 – registrado anteriormente em 1909.

porto.jpg

A ‘majestade Vitoriana’ de navios ancorados não permite desconfiar dos problemas que o transporte de carga enfrenta no caminho para e de Santos, responsável por 27% do comércio internacional do Brasil. No caso da soja os problemas começam no campo, onde o armazenamento deficiente força cultivadores a despachá-la diretamente ao porto, apesar do preço. Em seguida, enfrenta uma viagem acidentada em estradas esburacadas – 80% da carga chega a Santos em caminhões e não por estrada de ferro. A privatização e o melhor gerenciamento dos terminais conduziu a uma maior eficiência do porto, mas os navios ainda precisam aguardar em alto mar antes de adentrar o canal, que é 2m mais raso do que o recomendável. Os órgãos estatais reguladores para o meio ambiente estão retendo a permissão para aprofundá-lo. Os custos do transporte consomem quase 13% do PIB brasileiro, cinco pontos percentuais acima dos Estados Unidos, segundo Paulo Fleury da COPPEAD, uma escola de negócios do Rio de Janeiro. Essa é somente uma pequena parte da carga à qual os businessmen se referem desesperadamente como custo Brasil.

A larga capacidade de produção e a frustração se somam no Brasil nesses dias. O país explode em mercadorias cobiçadas pelas economias crescentes da Ásia – da soja ao minério. Nenhum outro país está mais bem qualificado para atender às demandas do entusiasmo global por biocombustíveis. Ainda assim, o Brasil recusa-se a crescer de acordo com as expectativas de sua população de 188 milhões. Desde o fim do “milagre econômico” dos anos 1960 e 70, quando o país foi o segundo a apresentar o mais rápido crescimento do mundo entre as grandes economias, o Brasil estagnou (ver diagrama 1). Durante os últimos quatro anos, enquanto o conjunto de países em desenvolvimento cresceu em média 7.3%, o Brasil estancou em 3.3%.

3csu099.gifEm 2003 o banco de investimento Goldman Sachs qualificou o Brasil, ao lado da Rússia, da Índia e da China, como um dos quatro “BRICs” – países em desenvolvimento que compartilhariam o domínio da economia mundial antes de 2050. O Brasil teve um crescimento muito menor que os demais, levando alguns brasileiros a indagarem se o “B” seria excluído do grupo. A Coréia do Sul ultrapassou o Brasil em renda per capita nos anos 1980; pode não demorar muito para que a China e a Índia façam o mesmo.

Os brasileiros também têm problemas “não-econômicos” com os quais se preocuparem. Em sua primeira oportunidade no poder, o Partido dos Trabalhadores (PT) do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – de quem se aguardava o combate contra a corrupção – orquestrou um esquema arcaico de suborno de congressistas em troca de votos, conhecido como “mensalão” (pagamento de mesada). O Congresso que encerrou sua legislatura de quatro anos em dezembro é largamente apontado como “o pior da história”. No ano passado as duas maiores cidades do Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro, foram aterrorizadas por bandos que atuam do interior do sistema prisional. A educação, possivelmente o pior defeito do Brasil, em vez de melhorar, tem piorado. Desde o ano passado, quando ocorreu o choque no ar entre um avião de passageiros e um jato executivo, as viagens aéreas se tornaram um tormento. O Brasil está “desmoronando em partes”, lamentou-se Lya Luft, colunista de Veja, a maior revista de notícias, no ano passado.

Qual é o problema?

A maioria dos brasileiros parece não ter noção. O presidente Lula ganhou a eleição de outubro passado de forma estrondosa, basicamente em virtude do assistencialismo aos pobres. A qualidade de vida está sendo melhorada, graças em parte às esmolas do governo federal. A desigualdade de renda, da qual o Brasil sofre mais do que a maioria dos países começou, finalmente, a encolher-se.

O mesmo é verdadeiro no que concerne à inflação, mantida às custas de altas taxas de juros. A introdução do real como moeda brasileira em 1994 encerrou décadas de alta inflação. Muitos observadores temeram que Lula a reacendesse quando foi eleito presidente pela primeira vez em 2002. O seu PT fez oposição ao Plano Real e as taxas de risco país dispararam com a perspectiva de eleição de Lula. Mas ele compreendeu que a inflação afetava mais os pobres. Desafiando os seus companheiros, entrincheirou a estabilidade, fielmente apoiada no tripé da política de seu predecessor e inimigo político, Fernando Henrique Cardoso: superávit primário elevado para reduzir a dívida em relação ao PIB, taxa de câmbio flutuante e metas de inflação.

Auxiliado pelo entusiasmo global por produtos brasileiros e pela estabilidade financeira, a dupla Cardoso-Lula conquistou um milagre econômico de tipo diferente. A inflação, no ano passado, foi de somente 3%, abaixo da meta de 4.5% estabelecida pelo Banco Central. Os mercados esperam que ela permaneça abaixo da meta neste ano. As taxas de juros reais estão em seu nível mais baixo desde 2001. O risco de uma crise externa interferir na economia doméstica – o que muitas vezes ocorreu durante os anos de 1990 – diminuiu. As exportações e o superávit da balança comercial dispararam (ver o diagrama 2), empurrando as reservas de divisas acima dos 100 bilhões de dólares. Quando o Brasil ficou independente em 1822 a Grã-Bretanha insistiu que ele assumisse as dívidas da coroa portuguesa. Agora o governo do Brasil é um credor internacional. A conquista de um rating de investment grade é, provavelmente, só uma questão de tempo. Quando Lula terminar o seu segundo mandato em 2010 o Brasil terá gozado “de 16 anos de estabilidade e predição”, diz Mailson da Nóbrega, um ex-ministro da Fazenda que agora dirige a consultoria Tendências. Este é um importante e muitas vezes subestimado desconto sobre o “custo Brasil”.

4csu096.gifDe algum modo o Brasil é o mais estável dos BRICs. Diferentemente da China e da Rússia ele é uma democracia genuína; e diferentemente da Índia ele não tem nenhum conflito sério com os seus vizinhos. Ele é o único BRIC que não dispõe de uma bomba atômica. O “Índice de Liberdade Econômica” elaborado pela Fundação Heritage, e que inclui fatores como a proteção aos direitos de propriedade e livre comércio, classifica o Brasil como economia “moderadamente aberta”, acima dos outro BRICs, em grande parte “fechados”. Uma das razões principais para que o crescimento do Brasil tenha sido mais lento do que o da China e o da Índia é que o país é mais rico e mais urbanizado.

As expectativas futuras persistem causando descontentamento porque o Brasil está sempre em um campo de batalha entre o avanço e a inércia. Desde a independência, que foi proclamada pelo filho do rei português, o Brasil foi fazendo remendo sobre remendo para modernizar-se em vez de livrar-se de velhos padrões e recomeçar definitivamente do novo. A constituição de 1988, que solidificou a democracia depois de 20 anos de ditadura militar, não aboliu a cultura da “cordialidade”, que em política significa primazia de gentilezas pessoais em contraste com o respeito às regras. “As liberdades e os direitos eleitorais estão consolidados”, diz o antigo presidente Cardoso, “mas falta cidadania, em relação ao respeito à lei. A democracia significa isto, também”.

Muito, demais

A constituição criou direitos em demasia – de estabilidade de servidores públicos, de permitir que governos estaduais criem taxas sobre receitas, de excessivos privilégios aos cidadãos, à transferências do governo – que o Brasil mal pode executar. Esses direitos ajudam a explicar porque as taxas de juros reais permanecem entre as mais altas do mundo, porque o investimento público em estradas, portos e outras áreas da infra-estrutura é lento, e porque a carga tributária é de um Welfare State europeu rico e não de uma economia jovem em desenvolvimento.

Conseqüentemente, o Brasil permanece no meio de uma metamorfose lenta na sua economia, na sua sociedade e no seu sistema de governo. “O Brasil contemporâneo é um híbrido entre duas modalidades: um desigual e hierárquico, outro universal e igualitário”, argumenta Jacqueline Muniz, antropóloga do Rio de Janeiro. O legalismo rígido convive com a ilegalidade exuberante, e um setor privado vibrante coexiste com um estado esclerosado. O presidente Lula, que se apresentou como uma alternativa aos oligarcas antiquados, agora governa com a sua ajuda. Poucos desses modernizadores não são manchados pelo seu passado.

Embora o progresso seja lento, as instituições do Brasil estão bastante firmes agora para deixá-lo razoavelmente seguro. O Goldman Sachs recentemente reafirmou a posição BRIC do país. O crescimento econômico pode superar os 4% neste ano. Quando as estimativas de crescimento do PIB foram revistas em março, o Brasil descobriu que ficou mais rico e menos endividado do que imaginava. Ele ainda pode fazer melhor. Mas isto necessitaria de mais discernimento de Lula, tão importante como a sua conversão à inflação baixa: que o obstáculo principal para progredir é o próprio estado.

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Menos impostos para melhorar o câmbio

O mercado passou a experimentar o novo piso do dólar em torno de R$ 2,00. Há diversas razões para a entender a valorização excessiva do real: a mais conhecida é a elevada taxa de juros, que atrai dólares; outra, é o fato de o risco país estar em baixa – apesar de não termos atingido ainda o investment grade. O déficit crescente nas contas externas americanas é mais um componente; em 2006, o déficit em conta-corrente dos Estados Unidos fechou em US$ 900 bilhões.

A notícia da valorização do real frente ao dólar é boa para a parcela de brasileiros que tem condições de viajar para o exterior e realizar compras de produtos importados de qualidade. Também é uma boa oportunidade para a importação de maquinário para o setor industrial de bens de consumo, para o comércio e para os serviços (importadores).

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Charge de KASSIO, para o jornal Correio Brasiliense

De compensação, os exportadores de produtos industrializados e manufaturados, estão reclamando de momentos difíceis, tendo de fechar empresas, dependentes do mercado externo. O turismo interno também perde substancialmente.

O melhor cenário seria apresentado com uma moeda nacional menos valorizada mas, sobretudo, com um poder de compra mais elevado por parte da população. O Brasil encontra-se em 72º lugar no ranking do PPP (Purchasing Power Parity) per capita, que define esse poder de compra, de acordo com dados do World Economic Outlook. Para melhorar nesse quesito, o governo teria de rever a escandalosa política de cobrança de impostos.

O apetite do leão é enorme! Somente para citar um exemplo de fácil compreensão, o vencedor da versão brasileira do reality show Big Brother teve de pagar R$ 275 mil de impostos, ficando com R$ 625 mil do prêmio de R$ 1 milhão. Entre os impostos incidentes o ‘menos injusto’ é o imposto de renda. Todavia, o desconto também incorre na CPMF e no IOF.

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Latin Finance: Falling Behind

latin-finance-logoFalling Behind
April 2007

Brazil is the only sub-investment grade BRIC country. It risks falling even further behind if the government neglects urgent fiscal reforms required to power economic growth.

Brazil has basked in the glory of its association with Russia, India and China, the fast growing emerging economies that join it in the BRIC bloc. But by many measures it is falling far behind. When Goldman Sachs coined the phrase BRIC in 2003, the idea was that they could outstrip the G6 economies by 2050, both financially and politically. But as other BRICs take off, Brazil is looking increasingly like a low-tech laggard that cannot grow itself out of a debt overhang.

Latin Finance - Falling Behind ”Brazil has been riding the wave of global growth and a great world environment,” says Edgardo Sternberg, emerging markets debt strategist at Loomis Sayles, which manages $88 billion in equity and debt assets worldwide. “Beyond that, little has been done. When that environment disappears, I want to see how well Brazil does.”

The country is coasting on the commodity rally and its private sector is thriving despite one of the most hostile environments in the world. But Brazil risks squandering a unique opportunity to become a world player if the Lula administration fails to match impressive first term fiscal prudence with equally ambitious fiscal reform and investment in infrastructure and education.

“Macroeconomic and financial instability have been reduced in a very significant and structural way, but the conditions for growth to accelerate to a new plateau have not been created,” says Alberto Ramos, senior Latin America economist at Goldman Sachs.

Ramos flags increased public spending through social transfer projects as a drag on Brazil’s projected 3.5% growth for 2007. China, India and Russia should register 9.8%, 8% and 7% economic growth in 2007, according to Goldman. Brazil has averaged just 2.6% growth since 2000, compared to 9.56% for China, 6.65% for India and 6.77% for Russia, Goldman data shows. And even though Brazil has the third largest economy by GDP, it has the second highest ratio of debt to GDP of the BRIC countries, the bulk of which is short-dated, keeping it at the junk rating.

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