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Partidos políticos e ideologias – 2ª parte

Na continuação ao artigo “As nuances da política”, publicado no dia 10 de setembro, que relatou o primeiro momento da história dos partidos políticos e as suas respectivas ideologias, apresentamos abaixo o estudo “Os herdeiros da Convenção”.

Na primeira parte, expusemos ‘as origens’, no período da “Convenção”, durante a Revolução Francesa, e do “Reform Act” (1832), na Inglaterra. Atravessamos a fase da globalização do final do século 19, a acenção dos partidos extremistas – comunistas e fascistas -, no seculo 20, o sistema de forças bipolar da Guerra Fria e encerramos diante do Portal de Brandenburgo, em 1989, quando da Queda do Muro de Berlim.

Em “Os herdeiros da Convenção”, analisamos a transição vivida pelo mundo, no período localizado entre o final dos anos 1990, quando colapso do comunismo, e a virada do milênio. O ensaio descreve um primeiro período no qual as esquerdas políticas se aproximaram do centro, através da chamada “Terceira Via” e, num segundo momento, a configuração do sistema de forças unipolar, representado pela hegemonia dos Estados Unidos e a doutrina Bush, depois dos ataques do “11 de setembro”.

 


mmayer.JPGOs herdeiros da Convenção
por Marcus Mayer
Exclusivo para o blog

 

O século 20 vislumbrou a vitória da democracia sobre o totalitarismo. Em 1917, ano marcado pela revolução russa, iniciou-se a era da ditadura do proletariado que, em nome da justiça social, promoveu o maior morticínio da história humana. Em 1989, o mundo assistiu ao colapso do socialismo, seguido da dissolução do último império remanescente, o império soviético.
Nos primeiros tempos após a dissolução da União Soviética (1991), os partidos políticos, de países democráticos, que se alinhavam ao pensamento marxista tiveram de enfrentar uma súbita orfandade.

O PCI, Partido Comunista da Itália – que em seu programa destacava o “objetivo de combater o estado burguês, abolir o capitalismo e realizar o comunismo através da revolução e da ditadura do proletariado” -, no seu 10º Congresso, em fevereiro de 1991, transformou-se no Partido Democrático da Esquerda (Partito Democratico della Sinistra, PDS).

colapso_comunismo.jpgO exemplo italiano foi seguido por diversos partidos comunistas e revolucionários do globo. Apesar de um coeficiente eleitoral muito reduzido, no Brasil, o PCB (Partido Comunista Brasileiro), sob o comando de seu líder, Roberto Freire, transformou-se no Partido Popular Socialista (PPS), em 1992. A mudança não foi somente no nome: ocorreu o rompimento com conceitos de revolução social e foram abraçadas idéias da social-democracia e da chamada “nova esquerda”. Os ideais partidários, afastaram-se, definitivamente, do modelo soviético.

A GRANDE TRANSIÇÃO

Na Alemanha, durante os primeiros anos da década dos 1990, Helmut Kohl, que governava sustentado pela coalizão CDU/CSU-FDP (democratas-cristãos e liberais). Transformou-se no Kanzler der Einheit (chanceler da unidade) – em alusão à reunificação alemã.

Como um dos grandes “arquitetos” da União Européia, Helmut Kohl enfrentou o elevado custo da reunificação das duas Alemanhas durante seus últimos anos à frente da chancelaria. O déficit público crescente (alimentado pelo welfare state) e as elevadas taxas de desemprego (19,3% no antigo lado oriental, em 1998) encerraram a sua longa passagem, de 14 anos, pela chefia do governo da Alemanha.

atomausstieg.jpgGerhard Schröder, líder da social-democracia alemã, entre 1998 e 2005, governou sob uma coalizão com os “verdes” (SPD-Die Grünen). Como condição para compor o gabinete, os ecologistas exigiram incluir no programa de governo a desativação de todas as usinas nucleares em território alemão, num prazo de 32 anos.

Na vizinha França, quem atravessou a fase do desmantelamento do comunismo soviético foi o presidente socialista François Mitterrand. No exercício de seu primeiro mandato (1981-1988), experimentou duas situações bastante distintas: começou governando com maioria na Assembléia, ao lado dos comunistas, e teve Pierre Mauroy no cargo de primeiro-ministro. Esse período foi marcado pela nacionalização dos 36 maiores bancos franceses (incluindo o Paribas e o Suez) e de grandes grupos industriais (CGE, PUK, Rhône-Poulenc, Saint-Gobain, Thomson).

Após dramática derrota do PS, nas eleições legislativas de 1986, para a coalizão de direita (UDF-RPR), Mitterrand teve de formar um governo de ‘coabitação’, com Jacques Chirac no cargo de primeiro-ministro. As nacionalizações executadas pelo gabinete anterior foram revertidas através de um programa de privatizações. Ao presidente socialista sobrou a tarefa de consolidar, ao lado de Helmut Kohl – através do aprofundamentos das relações franco-germânicas -, as instituições da União Européia, preparando-na para o euro e Maastricht.

Em 1995, o próprio Jacques Chirac chegou ao Élysée, através do RPR (Rassemblement pour la République), pondo um fim na trajetória socialista iniciada por François Mitterrand. Apesar de representar a direita francesa, os anos de Jacques Chirac na presidência não apresentaram nenhuma mudança mais nítida nas relações sócio-econômicas do país, diante do welfare state e do sindicalismo.

felipe-gonzalez-1986.jpgA Espanha também viveu o paradoxo entre a adoção de práticas socialistas e liberais sob o governo de Felipe González (1982-1996). Terceiro presidente do Governo (cargo equivalente ao de primeiro-ministro), desde a restauração da democracia na Espanha, González tornou-se ícone da esquerda européia, a partir do PSOE (Partido Socialista Obrebro Español).

Em 1985, a Espanha ingressou na Comunidade Econômica Européia e deu um grande salto de desenvolvimento. Contudo, o maior desafio da administração foi a fracassada batalha pela redução do mais alto índice de desemprego da Europa. González assumiu o primeiro mandato (1982) com uma taxa de desemprego de 24%. Quando deixou o governo o percentual ainda era de 22%.

Apesar de a Espanha ter abandonado seu secular atraso, classificando-se entre os países mais dinâmicos, em termos econômicos e de costumes, no meio europeu, o final do governo de Felipe González foi marcado por escândalos de corrupção no gabinete ministerial e pelo envolvimento de membros do governo em ações de terrorismo de estado¹.

Em 1996, José María Aznar foi conduzido ao cargo de presidente do Governo espanhol, depois da vitória do PP (Partido Popular), de centro-direita. Sob sua administração, a Espanha conheceu a maior projeção internacional de sua história. O taxa de desemprego (22%), herdada do governo anterior, foi reduzida para 9%. Uma reforma administrativa radical diminuiu drasticamente o número de funcionários públicos, e a política de “déficit zero” adaptou o país às exigências do Tratado de Maastricht (adesão da Espanha ao euro).

thatcher.jpgEntre 1979 e 1990, o Reino Unido foi governado por Margareth Thatcher, a “Dama de Ferro”. Através de reformas liberais radicais, reduziu extraordinariamente a interferência do estado na economia. Adotou um amplo programa de privatizações, reduziu impostos, incentivou a integração comercial e executou reformas administrativas e fiscais. Essas medidas se transformaram na receita liberal para impulsionar o crescimento econômico, reduzir o desemprego e ampliar a distribuição da riqueza.

John Major, no cargo de primeiro-ministro britânico, entre 1990 e 1997, deu continuidade à política-econômica liberal de sua antecessora e estreitou as relações do Reino Unido com a União Européia. Após 18 anos do Partido Conservador (Tory) à frente do governo, os britânicos deram vitória aos trabalhistas em 1997, conduzindo Tony Blair ao cargo de primeiro-ministro.

terceira-via.jpgRompendo radicalmente com a tradição trabalhista, Blair apresentou “o modelo para o século 21″, segundo o princípio “trabalho para os que podem trabalhar e assistência para os que não podem trabalhar”. Influenciado pelo pensamento do sociólogo Anthony Giddens, Tony Blair adotou a Terceira Via como filosofia de seu governo. Sem abandonar as causas sociais, o novo trabalhismo britânico reconheceu nas práticas liberais – desregulamentação, descentralização e menor carga de impostos-, o melhor caminho para o desenvolvimento econômico e social.

A Terceira Via foi abraçada pelos contemporâneos de Tony Blair, os presidentes Bill Clinton, dos Estados Unidos, Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, e pelo chanceler Gerhard Schröder, da Alemanha.

AMÉRICA

George Bush sênior, do Partido Republicano, foi o 41º presidente dos Estados Unidos, entre 1989 e 1993. O acontecimento mais marcante de sua passagem pela presidência foi a primeira Guerra do Golfo. Os Estados Unidos expulsaram o ditador Saddam Hussein do Kuwait, país vizinho que havia sido invadido pelo Iraque. Apesar da vitória americana e do apoio internacional, Bush amargou derrota para Bill Clinton em sua tentativa de ser reconduzido à Casa Branca.

clinton-gore-1996.jpegEleito pela primeira vez em novembro de 1992 e reeleito em 1996, pelo Partido Democrata, Clinton cumpriu seus dois mandatos sob a tranqüilidade que lhe ofereceu a condição de potência hegemônica. Adepto da “Terceira Via”, o presidente americano incentivou o multilateralismo nas relações internacionais e desenvolveu o projeto de criação de uma área de livre-comércio para o Hemisfério, a ALCA.

A sucessão de Bill Clinton, com a derrota do então vice-presidente Al Gore no Colégio Eleitoral – apesar da maioria de votos obtidos nas urnas -, conduziu à Casa Branca o republicano George Walker Bush, em 2001.

REDEMOCRATIZAÇÃO

Descendo pelo mapa do Continente, a América Latina viveu um período de redemocratização em diversos países durante a década dos 1980. No Brasil, o presidente José Sarney exerceu seu mandato como ‘presidente da transição’. Foi indicado por um Colégio Eleitoral formado pelo Parlamento, como vice-presidente na chapa de Tancredo Neves, apoiada pelo PMDB e pela Frente Liberal (dissidência do PDS, partido de sustentação ao governo militar e sucessor da ARENA).

collor-juan-carlos.jpgAs primeiras eleições diretas no Brasil ocorreram, todavia, somente em 1989, e conduziram Fernando Collor de Mello ao Palácio do Planalto. Collor implementou medidas liberalizantes na economia – abertura do mercado para investimentos estrangeiros, modernização do parque industrial, reforma administrativa e iníciou do processo de privatização de grandes empresas estatais -, malgrado tenha experimentado um plano heterodoxo para contenção da hiperinflação. Sem gozar de apoio da maioria no Parlamento, o seu mandato foi abreviado por um processo de impeachment, originado na malversação de recursos da campanha eleitoral.

Durante o governo de Itamar Franco – que chegou ao Planalto em decorrência do impedimento imposto a Fernando Collor -, foi dado prosseguimento ao programa de privatizações em curso. Nomeado para o ministério da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso implantou o Plano Real que, depois de diversas tentativas heterodoxas de contenção da inflação, conseguiu manter os preços através da adoção de uma âncora cambial (URV). O Plano Real foi severamente criticado pelos líderes oposicionistas Leonel Brizola, do PDT, e Luis Inácio Lula da Silva, do PT. Durante o período de Ciro Gomes no ministério da Fazenda, as taxas de importação foram reduzidas, como medida preventiva diante da tentativa de elevação desmesurada de preços ensaiada por setores conservadores da indústria nacional.

fhc_clinton.jpgCom o sucesso do Plano Real, Fernando Henrique Cardoso foi eleito e reeleito para a presidência da República nas eleições de 1994 e 1998, pela coligação PSDB-PFL. Durante o primeiro mandato, o presidente Cardoso prosseguiu com reformas liberalizantes da economia, através das privatizações, iniciadas nos governos anteriores. Na política externa, elevou o conceito do País diante da comunidade internacional, tornando o Brasil um interlocutor de relevância nas cúpulas mundiais.

Após receber continuadas críticas, inclusive de aliados à esquerda no espectro político nacional – que o chamavam, pejorativamente, de “neoliberal” -, Fernando Henrique Cardoso marcou o segundo mandato através da maior valorização das instituições estatais, sobretudo, na área fiscal – através da elevação de de impostos – e brecou o programa de privatizações. Enfrentou diversas crises internacionais que interferiram negativamente na economia doméstica, causando uma uma brutal desvalorização da moeda. O segundo mandato do presidente Cardoso também foi marcado por uma grave crise no setor energético.

carlos-menem-y-domingo-cavallo.jpgNa Argentina, em 1983, foi eleito Raúl Alfonsin, pela UCR (União Cívica Radical), após um ciclo militar que durou dez anos. Cinco meses antes do encerramento de seu mandato, renunciou em decorrência de grave crise hiperinflacionária. Seu sucessor, o justicialista Carlos Saúl Menem, que governou entre 1989 e 1999, empreendeu reformas liberalizantes na economia. O governo Menem foi marcado pelas privatizações de canais televisivos e das maiores empresas nacionais que estavam sob controle do estado, entre elas, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales y Gas del Estado. Desregulou a economia e estabeleceu a liberdade de preços. Durante a gestão de Domingo Cavallo no ministério da Economia, criou a Ley de Convertibilidad – um peso um dólar – cuja aplicação se prolongou até a crise de 2001/2002.

No Paraguai, em 1989 encerrou-se o longo ciclo de 35 anos da ditadura de Alfredo Strössner no poder, com a eleição de Andrés Rodríguez. Na Bolívia, em 1982 Siles Zuazo fez a transição do país para a democracia. Em 1984, o líder Colorado, Julio María Sanguinetti ganhou a presidência do Uruguai. Implementou reformas econômicas e consolidou a democracia depois dos anos nos quais o país esteve dominado pela repressão militar.

A redemocratização no Chile ocorreu depois de um plebiscito popular, em 1988, que perguntava ao povo se desejava ou não a continuidade do governo de Augusto Pinochet (1973-1990). Com uma apertada vitória do “não” à consulta (54,6%), em 1989, elegeu-se para o período conhecido como “de transição” Patrício Aylwin, pela coligação entre democratas-cristãos, progressistas e socialistas, chamada de Concertación de Partidos por la Democracia.

ricardo-lagos.jpgA Concertación venceu todas as eleições seguintes: em 1994, com o democrata-cristão Eduardo Frei e, em 2000, com o socialista Ricardo Lagos². Apesar de integrar a ala esquerda da coligação partidária, Lagos ampliou a política econômica liberal herdada do governo Pinochet – mantida pelos governos que o antecederam. Lagos aprofundou o sistema de concessões ao setor privado para a realização de obras públicas (equivalente chileno às PPP – Parcerias Público-Privadas -, brasileiras) e assinou tratados de livre comércio com os Estados Unidos, União Européia, China e Coréia do Sul.

Após 12 anos de governo militar, em 1981, Belaúnde Terry elegeu-se presidente, retornando ao cargo que já tinha exercido durante a década dos 1960, no Peru. Em 1985, passou a presidência ao seu sucessor, Alan García (1985 e 1990), que levou a APRA³ , Alianza Popular Revolucionaria Americana – uma organização de inspiração socialista – pela primeira vez ao poder. A política econômica de García foi caracterizada pela estatização de bancos, moratória da dívida e emissão de moeda para investimento estatal. O resultado da empreitada foi mergulhar o país em uma grave crise.

alberto_fujimori.jpgEm 1990, com a chegada de Alberto Fujimori à presidência, o Peru iniciou uma grande batalha contra a corrupção, eliminou as guerrilhas – Sendero Luminoso (maoísta) e Tupac Amarú (marxista) -, e implementou reformas liberais. Com o sucesso das empreitadas, Fujimori foi reconduzido ao cargo em 1995. Ao tentar um terceiro governo, teve de renunciar quatro meses após a sua posse, devido a escândalos de corrupção, que o levaram a fugir do país. O governo de Alejandro Toledo (2001-2006) se caracterizou pelo retorno à estabilidade política, tendo permitido um razoável crescimento econômico através da manutenção de práticas econômicas liberais.

vicente-fox.jpgO chamado “milagre econômico mexicano” ou desarollo estabilizador ocorreu entre 1958 e 1970, quando o modelo de substituição de importações não mais se adequava às necessidades do país. No período, contudo, também ocorreram protestos e pedidos por liberdade e direitos civis. Somente no ano 2000, o México viveu pela primeira vez, depois de 71 anos, a alternância política quando uma aliança do Partido Acción Nacional e Verde Ecologista derrotou o PRI (Partido Revolucionario Institucional), conduzindo Vicente Fox, com uma plataforma liberal, à presidência.

Na Nicarágua foram realizadas as primeiras eleições democráticas pluripartidárias em 1990, elegendo à presidência Violeta Chamorro, através da UNO, Unión Nacional Opositora, formada por 14 partidos – 4 conservadores, 7 centristas-liberais e 3 esquerdistas -, substituindo Daniel Ortega, líder marxista da FSLN (Frente Sandinista de Libertación Nacional), no poder desde 1979.

TERCEIRO MILÊNIO

Depois de percorrer as diversas fases da história das ideologias políticas e de suas representações partidárias, pode-se melhor compreender o panorama político mundial dos dias atuais.

Depois de uma apertadíssima vitória nas eleições gerais da Alemanha, em 2005, na qual os democratas-cristãos (CDU/CSU) obtiveram 35,2% das preferências contra 34,2% dos social-democratas (SPD), a chanceler Angela Merkel governa atualmente sob a chamada “grande coalizão”, que reúne os dois partidos tradicionalmente opostos.

angela_merkel.jpgOs votos dos partidos CDU/CSU e FDP (democrata-liberais) somados não permitiu a formação de maioria necessária no Bundestag (parlamento alemão) para que se estabelecesse a tradicional coalizão de centro-direita. Além disso, a soma dos percentuais de votos conferidos aos social-democratas e aos verdes (que sustentaram o governo de Gerhard Schröder) foi superior. Para formar um gabinete, tentou-se ainda uma coalizão que reuniria democratas-cristãos, liberais e verdes (apelidada “Jamaica”, dada a semelhança entre o colorido da bandeira do país caribenho e as cores dos partidos alemães envolvidos).

Após um longo período de negociações, apelidado de “Rodada dos Elefantes” (por se tratar dos dois grandes partidos), montou-se o gabinete formado pela centro-direita e pela centro-esquerda alemãs, elevando Angela Merkel (CDU) ao posto de chanceler e Franz Münterfering (SPD) ao de vice.

Os acordos firmados entre essas duas correntes partidárias – envolvendo as políticas interna, externa, fiscal e trabalhista -, refletem a extraordinária aproximação entre os pensamentos políticos que, em outras épocas, pareciam inconciliáveis.

O Reino Unido experimenta – após dez anos de governo Blair e da instituição da Terceira Via -, uma forte aproximação das práticas políticas, à semelhança do que ocorre atualmente na Alemanha. Não chega a formar nenhuma “grande coalizão”, mas a direita (Tory Party) e a esquerda (Labour Party) assemelham-se na forma de lidar com a administração pública e conduzir a economia. Gordon Brown, que chegou a 10 Downing Street em junho de 2007, não repete, contudo, o alinhamento pleno aos Estados Unidos nas questões da política externa – concernentes ao Oriente Médio e ao Iraque -, como o fez o seu antecessor.

nicolas-sarkozy.jpgNa França, onde o welfare state, o sindicalismo e a burocracia ainda exercem larga influência nas relações sócio-econômicas do país, uma “nova direita”, voltada para a conciliação entre o liberalismo econômico e as questões sociais, encontra espaço com Nicolas Sarkozy à frente do Élisée, desde maio de 2007. A principal razão pela derrota dos socialistas nas últimas eleições é creditada a uma não atualização do programa da esquerda, no sentido da mordenização do estado francês. Durante os debates eleitorais, a candidata Ségolène Royal indicava que seu eventual governo ampliaria o déficit público e a interferência do estado na economia.

A três dias das eleições gerais de 2004 na Espanha, ocorreram os atentados terroristas que ficaram conhecidos como 11-M, nos quais morreram 191 pessoas. Os ataques foram atribuídos, pelo primeiro-ministro José María Aznar, do PP (Partido Popular), com toda a convicção, ao ETA – o grupo separatista basco. Descobriu-se, contudo, que foram promovidos por terroristas islâmicos, como protesto pela presença de tropas espanholas no Iraque.

O grave equívoco de Aznar e o seu posicionamento favorável à invasão do Iraque pelos Estados Unidos deram a vitória ao candidato do PSOE, José Luis Rodríguez Zapatero. Uma das primeiras medidas de Zapatero, conforme compromisso de campanha, foi a retirada das tropas espanholas do Iraque. Aprovou a lei que permite a união civil entre homossexuais e tem privilegiado políticas sociais. Seguindo a linha atual da social-democracia européia, assimilou práticas econômicas liberais como a defesa de superávit nas contas públicas.

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DOUTRINA BUSH

Distintamente do fenômeno de aproximação entre esquerdas e direitas políticas na Europa, o governo de George Bush (Partido Republicano), nos Estados Unidos, assumiu um caráter demasiado conservador, tanto no âmbito social quanto em questões de abrangência econômica.

george-w-bush.jpgBush privilegia intensamente o pensamento religioso cristão. Defende o ensino do criacionismo (em oposição ao darwinismo) nas escolas públicas, proíbe a manipulação de células-tronco humanas na pesquisa científica, é contrário à união civil de pessoas do mesmo sexo e condena radicalmente o direito ao aborto.

Nas relações internacionais os Estados Unidos adotam a chamada Doctrine Bush, que reúne princípios e métodos para “proteger” os EUA depois dos atentados do 11 de setembro de 2001. A doutrina Bush visa a consolidar a hegemonia americana no mundo e perpetuá-la indefinidamente.

Durante a era Reagan (1981-1989), o planeta ainda vivia sob a ameaça de transformar a Guerra Fria em guerra de facto. Os Estados Unidos, como potência ocidental, e “protetora” do mundo democrático, estabeleciam o contraponto ao sistema soviético.

O governo republicano de George Bush defende teses que partem do pressuposto de que a “única” superpotência global (sistema de forças unipolar), teria hoje o papel de proteger o mundo “civilizado” dos terroristas, que planejam ataques “iminentes” com armas de destruição em massa.

Atribui-se ao ex-assessor da Casa Branca, Karl Rove, ao vice-presidente, Dick Cheney, ao ex-secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, à secretária de Estado, Condoleezza Rice e ao ex-subsecretário de Defesa, Paul Wolfowitz, a qualidade de principais estrategistas da Doutrina Bush.

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A globalização liberal, o multilateralismo nas relações internacionais, a integração econômica das Américas (através da Alca), a importância das Nações Unidas, organismos e convenções multilaterais (OMC, ‘Protocolo de Kyoto sobre Mudanças Climáticas’, ‘Conferência da ONU Contra o Racismo’) e a política de paz no Oriente Médio, foram colocados em segundo plano sob a administração Bush. Essa política, todavia, começou a mostrar sinais de enfraquecimento com a saída de Rumsfeld, Wolfowitz e, mais recentemente, de Karl Rove do governo.

Até no próprio Partido Republicano, diversos candidatos¹¹ à sucessão presidencial em 2008 já manifestam o desejo de romper com a Doutrina Bush e retomar os ideais liberais e multilateralistas, que estavam em curso desde o governo de Bill Clinton.

AMÉRICA LATINA

Na última década do século 20, após a restauração democrática, muitos países latino-americanos experimentaram a aplicação de teses liberais. Nações que praticavam reserva de mercado abriram-se para o comércio internacional. Empresas estatais foram vendidas para o setor privado, inclusive com a participação do capital estrangeiro. Parques industriais foram modernizados e barreiras alfandegárias foram reduzidas.

Apesar dos muitos avanços, o enorme abismo que separa ricos e pobres diminuiu aquém das expectativas. Isso permitiu que novos governantes fossem eleitos sob plataformas nacionalistas, fazendo ressurgir o modelo dos combalidos regimes militares e das experiências socialistas.

esquerda-latino-americana.jpg A radicalização acabou ganhando corpo e colocou em um dos lados da contenda ideológica o líder venezuelano Hugo Cháves; e de outro, o modelo de economia liberal chileno. No meio dessa oposição de valores, destaca-se o brasileiro Luis Inácio Lula da Silva.

Leia a continuação desse tópico, “América Latina” em “Partidos Políticos e Ideologias – ÚLTIMA PARTE”. Faremos uma detalhada análise dos cenários latino-americano e brasileiro atuais. Esperamos publicar o texto que encerrará a série na próxima semana.


 


NOTAS

¹ Os Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL) foram agrupações que praticaram o terrorismo de estado durante a década dos 1980. Foram criados e dirigidos por altos funcionários do ministério do Interior da Espanha, então dirigido pelo governo do PSOE do presidente Felipe González.

² Ricardo Lagos foi nomeado durante o governo de Eduardo Frei como integrante do Comitê de Doze Membros Distintos da Internacional Socialista, onde divide com personalidades com Felipe González e Gro Harlem Brundtland a tarefa de elaborar propostas para a renovação do pensamento social-democrata para o século XXI.

³ O programa da APRA, nas suas origens, visava a criação de uma “Frente Única Latino-americana”, conforme designio de seu fundador, Haya de la Torre, e continha cinco preceitos basicos: 1. ação contra o ‘imperialismo’; 2. unidade política da América Latina; 3. nacionalização das terras e das indústrias; 4. internacionalização do Canal de Panamá; 5. solidariedade com todos os povos e classes oprimidos do mundo.

¹¹ Os potenciais candidatos à sucessão de George Bush, pelo Partido Republicano, são: o senador pelo Arizona John McCain; o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani; o vice-presidente Dick Cheney; o ex-senador pelo Tennessee e veterano ator de Hollywood Fred Thompson; a secretária de Estado Condoleezza Rice; e o ex-governador de Massachusetts, o mórmon Mitt Romney. Do lado Democrata, despontam a senadora por Nova York Hillary Clinton; o senador por Illinois Barack Obama; e o governador do Novo México Bill Richardson. Ao deixar o Partido Republicano, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, abriu caminho para sair como candidato independente nas eleições, apesar de suas negativas.

 

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Resta algo positivo do governo Lula da Silva?

lula_celebra_vitoria.jpgSim – é verdade! Existem aspectos positivos no governo Lula da Silva, mesmo quando observados sob uma ótica liberal. Hoje procuraremos falar somente de coisas boas.

Fernando Collor foi o presidente da abertura econômica: atraiu investimento estrangeiro e permitiu a modernização do parque industrial; também foi o responsável pelo início do processo de desestatização. Fernando Henrique Cardoso, através do Plano Real, conseguiu controlar a hiperinflação, deu continuidade ao processo de privatizações e melhorou substancialmente a imagem do Brasil no exterior.

AS VIRTUDES
Lula da Silva talvez conquiste para o Brasil o “investment grade”, um rating que reflete o risco país, antes do final de seu mandato, em 2010. Essa classificação é utilizada por investidores estrangeiros, para decidir por países que valham aplicações, refletindo o risco de não honrarem o pagamento de seus títulos. Quanto melhor é a avaliação, maior é a capacidade de atrair investimentos. O Brasil está a um degrau da faixa de grau de investimento. No último dia 10, a agência de classificação de risco Fitch elevou a nota atribuída ao Brasil de “BB” para “BB+”. (Veja o ranking da Fitch)

O segundo destaque positivo do governo Lula da Silva tem sido a atuação da Polícia Federal. Lamentavelmente, não há garantias de que todos os bandidos – entre eles políticos, desembargadores, juízes, delegados, policiais –, funcionários públicos de todos os escalões, que têm sido pegos cometendo crimes, sejam condenados. Mas a PF está fazendo a sua parte, encaminhando os marginais para a alçada da Justiça.

policia_federal.jpg Hoje foi divulgada a Operação Navalha, que desarticulou uma suposta quadrilha que fraudava licitações públicas para a realização de obras, com a prisão de 46 pessoas, entre elas o ex-governador José Reinaldo Tavares (MA), o filho do ex-governador João Alves Filho (SE), dois sobrinhos do governador Jackson Lago (MA), prefeitos, um deputado distrital, um funcionário do Planejamento e um assessor do ministro Silas Rondeau (Minas e Energia).

policia_federal_logo.gif Para que se tenha uma melhor idéia a respeito das várias operações da Polícia Federal nos últimos anos, segue abaixo uma lista com os seus nomes e as respectivas ações:

- Têmis e Hurricane: venda de sentenças judiciais favoráveis aos jogos ilegais
- Sanguessuga: compra superfaturada de ambulâncias com dinheiro público
- Hidra: combate ao contrabando
- Anaconda: venda de sentenças judiciais
- Águia e Planador: tráfico internacional de drogas
- Zaqueu: corrupção nas delegacias do trabalho
- Matusalém e Zumbi: fraudes no INSS
- Lince: extração ilegal de diamantes
- Lince 2: adulteração de combustíveis e roubo de carga
- Farol da Colina: remessa ilegal de dinheiro para o exterior
- Soro: falsificação de leite em pó
- Sucuri e Trânsito livre: facilitação de contrabando
- Pandora: extorsão de empresários
- Vampiro: fraude em licitação de hemoderivados
- Isaías: extração ilegal de madeira

Fonte: revista Veja

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