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Sobre a crise na USP

Segue abaixo, na íntegra, texto publicado por Reinaldo de Azevedo (foto) em seu blog, no site da revista VEJA. O blog expõe o debate, desde o dia da invasão do prédio da reitoria da USP, através de diversos textos muito interessantes do articulista, bem como de diálogos que tem mantido com alunos da universidade – entre eles, aqueles que estão a favor do movimento e outros que são contrários. Vale a pena dar uma lida nos diversos posts, clicando sobre os links dos textos de arquivo do mês de maio. O debate chega a ser muito divertido!


reinaldo_azevedo.jpgPor que tantos odeiam a FEA-USP?
por Reynaldo de Azevedo
Extraído de seu blog, no site da revista Veja

É fascinante! Vocês não sabem a quantidade de comentários que chegam esculhambando a FEA — a Faculdade de Economia e Administração — da USP. Por quê?

Estive lá dia desses. Com efeito, nem parece a USP — como diria Lula de certo país africano — de tão limpinha. Tive de caminhar de um prédio pra outro, até me encontrar com um professor. Passei antes no banheiro para ajeitar o colarinho, lavar o rosto. Estava tudo muito aceitável. Não reparei, mas acho que havia ar condicionado no saguão. Não me lembro de ter sentido calor. Não há aquele cinza-concreto com pichação — misto de Alemanha Oriental pré-queda do Muro com Paris de 1968 —, que tão bem caracteriza certos prédios da universidade. A FEA excita a imaginação dos que pretendem fazer arranca-rabo de classes entre os estudantes.

E como é que se chegou àquele estágio. “Ah, esses mercenários recebem dinheiro privado por meio das fundações”.É mesmo, é? Que crime, não? Quer dizer que o “merrrcado” se interessa, por exemplo, pelos números da Fipe? Ainda bem! Mas não só o merrrcado. Também o trabalhadores. Seus índices de inflação já serviram de argumento para muita reivindicação sindical. A Fipe foi uma das primeiras fundações a se interessar por microeconomia no Brasil — ou pela chamada “economia real”. Universidades no MUNDO INTEIRO — anotaram aí a expressão “MUNDO INTEIRO?” — prestam esse tipo de serviço. E são, sim, remuneradas. E aplicam o que recebem na melhoria das condições de ensino e de pesquisa.

Por que é que a Fefeléchi não tem, até hoje, um instituto de pesquisas? O que fazem os seus sociólogos que não se encarregam de criar um? Falta dinheiro? Ora, se há expertise ali, se há competência, o dinheiro aparece: vem da iniciativa privada. O capitalismo se interessa pela ciência. O problema é que boa parte do rebanho da Fefeléchi, liderado por carneiros lesos, está interessada em destruir o capitalismo. Por que não se juntam os sociólogos dali com os especialistas em estatística do IME para criar uma robusta fundação, um DataBrasil, um DataUSP? Ah, e quem vai cuidar do socialismo enquanto essa gente trabalha? Entendo. Com a quantidade de professores versados nas mais diversas línguas que têm as Letras — têm, não têm? —, por que não se cria uma fundação para a edição de livros, oferecendo aos brasileiros traduções ainda fora do alcance dos nativos? Será que isso tudo tem de ser financiado com dinheiro público?

Acontece que a casta universitária pretende ter criado a Exceção Brasileira. Ela não quer contato com o mundo real. Pior do que isso: censura quem se organiza para enfrentar com competência o mundo moderno. Conheço a FEA. Conheço gente que dá aula ali. Conheço alunos. Meu sobrinho mais velho cursa o segundo ano de Economia. De fato, nem parece a África… E não que faltem esquerdistas. Até sobram. Vi dia destes o material de certa disciplina, que ele me apresentou. É de chorar. Marxismo vagabundo. Mas também há outras influências. Ele não é de esquerda — diriam os comunistas que se trata de um jovem de direita, que até gosta de estudar; um pecado! —, mas não se sente oprimido nem pelo pensamento único nem por tetos que desabam sobre a cabeça.

E, no entanto, qual é o principal alvo das Mafaldinhas e Remelentos? A FEA, a faculdade dos burgueses — e também a Poli. Tudo porque essas faculdades descobriram que existe o mundo real. O que essa gente quer é dinheiro do estado burguês para que eles possam, na universidade, brincar de revolução; brincar de destruir… o estado burguês. Deve haver muitos defeitos na FEA. Sempre há. Mas ainda é o melhor modelo para a USP. E dona Suely, reitora da universidade, infelizmente, não concorda comigo.

PS: A propósito: reparem que os “intelequituais” das humanas, que fazem sua carreira pregando a rebelião, escolhem editoras privadas para publicar seus livrinhos — ou livrões, né, Marilena Chaui? —, que ninguém é de ferro. Para os coitadinhos que alisam os bancos, socialismo. Para os mestres do socialismo, o bom e velho capitalismo.

Pode ser cansativo desmoralizar essa gente ainda mais. Mas é necessário.


Uma fundação ou um instituto para a FFLCH

Seguindo sugestão de Reinaldo de Azevedo, colunista de VEJA, a partir dos próximos dias, vamos nos empenhar na criação de um “DataUSP”, uma fundação vinculada à FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), conforme anunciamos em nosso post “A crise na USP”, em 19/05. Leia o artigo clicando aqui

Uma das atividades da Fundação será o acompanhamento constante de todas as atividades parlamentares, com fornecimento das informações para os maiores órgãos da imprensa nacional, além da veiculação dos dados, de forma didática, em site na Internet.

Outra ocupação (o termo está em moda!) do “DataUSP” será a tradução de livros, atividade na qual o Brasil é extremamente carente, considerado o acervo de obras importantes traduzidas para a Língua Portuguesa. A situação é vergonhosa, se comparada com o número de boas traduções para o espanhol.

Naturalmente, já temos um elenco bastante largo de atividades com as quais a Fundação poderá se preocupar (nem todas descritas aqui), bem como as fontes de financiamento, ávidas pelo trabalho que será executado por estudantes e profissionais das áreas de Ciências Sociais, Geografia, História, Filosofia, Letras, Biblioteconomia etc.

A sugestão de integrar o IME, Instituto de Matemática e Estatística, bem como a FIPE, Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – dois órgãos da Universidade de São Paulo -, como sugere Reinaldo de Azevedo, será estudada com muito carinho, de tal forma que se obtenha total êxito na empreitada.

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A crise na USP

FOTOS: Simone Harnik / G1
reitoria_usp_ocupacao.jpgPrédio da reitoria da USP ocupado por ‘estudantes’

Em recente artigo, tratei do tema da ocupação da reitoria da USP, Universidade de São Paulo, no campus Butantã, por alguns alunos. Mais do que abordar o movimento e a greve que se instalou, descrevi o curioso saudosismo dos tempos da Guerra Fria e do alinhamento pró-soviético de parcela substantiva do alunado.

Nos dias que se seguiram até a data atual, os principais órgãos de imprensa deram cobertura à evolução dos acontecimentos. Como aluno da universidade, acompanhei de perto a movimentação. O texto a seguir visa a relatar os acontecimentos e a oferecer um diagnóstico da crise que se instalou. Com efeito, procuro também oferecer propostas e soluções.

HISTÓRICO – No mês de janeiro, logo após a posse, o governador José Serra criou medida que visou a exigir mais transparência nos gastos das três universidades estaduais – USP, Unesp e Unicamp, através do qual as contas das instituições de ensino passariam a ser incluídas no Siafem, Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios. “O sistema monitora a movimentação do caixa de órgãos públicos, permitindo aos contribuintes acompanhar o uso de seu dinheiro e, aos administradores, avaliar a eficiência da gestão financeira”, conforme esclareceu a revista Veja, na edição do dia 16 de maio. Aos reitores das universidades não agradou a idéia e, sob o argumento de “perda de autonomia”, fizeram declarações descabidas. “Acabaram insuflando a extrema esquerda estudantil”, escreveu Reinaldo de Azevedo, colunista de Veja, em seu blog.

Desde os primeiros meses do ano letivo já se observavam cartazes e panfletos de autoria de centros acadêmicos, condenando a medida do governador. No período, ocorreram diversas reuniões de estudantes e algumas delas contaram com debate de professores. Destaque-se que os órgãos de ‘representação estudantil’ (CAs e DCEs) são ocupados por ‘estudantes’ que, mais do que essa qualificação, são ativistas militantes de partidos políticos, majoritariamente do PT, PSTU, PSOL, PCO e PC do B. Além desses, também aderiram ao movimento estudantes sem qualquer vínculo partidário, mas que são simpáticos aos ideais da esquerda revolucionária. Outros, bem intencionados, inclusive alguns colegas, desejosos de alcançar seus objetivos acadêmicos, não se dão conta de que sucumbem atuando como massa de manobra dos radicais. Numa assembléia de estudantes, da qual participei como ouvinte fortuito, a forma de tratamento que os oradores destinavam à platéia era – pasmem(!) – camaradas.

Os líderes dos movimentos que se opuseram ao decreto do governador solicitaram audiência à reitora da USP, Suely Vilela, e foram informados de que seriam atendidos pelo vice-reitor, pelo fato de a reitora encontrar-se viajando. No dia da audiência os estudantes não quiseram conversa com o vice-reitor e deram início ao quebra-quebra que destruiu as portas da reitoria e invadiram as suas dependências. Um colega que esteve presente disse que “a ocupação foi pacífica”, mas a foto abaixo põe em dúvida a informação.

reitoria_usp_ocupacao_21.jpg

O espantoso é que, mesmo num centro de excelência acadêmica como a Universidade de São Paulo – que exige aprovação na Fuvest, um dos mais difíceis vestibulares do país, acessível somente àqueles que tiveram uma boa base educacional -, haja tanta desinformação por parte do alunado. Nessa análise, porém, é muito importante não generalizar. Toda essa descrição é bastante válida para a FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) e para a ECA (Escola de Comunicação e Artes) – exatamente as unidades tiveram maior adesão de alunos à greve que se instalou e que se mostraram favoráveis à ocupação da reitoria.

marilenachaui.jpgA FFLCH e a ECA comportam cursos de graduação em Ciências Sociais, História, Geografia e Jornalismo, entre outros, e têm um histórico que se caracteriza pelo combate à ditadura militar, mas também pelo alinhamento pró-soviético, nos tempos da Guerra Fria do século passado, tanto por parte do alunado como de seu corpo docente, diga-se Marilena Chauí (foto) ou Emir Sader, entre muitos outros. Não há mais ditadura militar e a ex-URSS foi esfacelada. Os saudosos da época, porém, ficaram órfãos de modelos e de ideais. Com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, uma ala alinha-se a favor do governo Lula da Silva e outra mais radical aderiu aos partidos mais à esquerda, como PSOL, PSTU, PC do B e PCO. Quase todos defendem governos como os de Hugo Chaves, da Venezuela, e de Evo Morales, da Bolívia.

Para esses pseudo-estudantes o que mais importa é a baderna e o quebra-quebra. A utopia ainda é uma revolução nos moldes bolchevistas. E a chance de tomar posse de um espaço como a reitoria da Universidade acaba se transformando numa insólita conquista.

FEA-USP: um prédio moderno e investimentos privados

O CONTRASTE – Enquanto certos prédios da universidade são caracterizados pelo “cinza-concreto com pichação — misto de Alemanha Oriental pré-queda do Muro com Paris de 1968”, como os descreve Reinaldo de Azevedo em seu blog, a FEA (Faculdade de Economia e Administração) parece uma ilha de prosperidade, um complexo limpo e organizado. Quando vou tomar café na cantina da FEA, meu amigo Gabriel Souza, estudante do curso de Letras, costuma dizer: “Aqui é a Europa da USP enquanto a FFLCH é a África!”.

O que distingue a FEA das demais? – Ela recebe dinheiro de fundações como a FIA (Fundação Instituto de Administração), a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e a Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras).

Para equiparar-se, bastaria à FFLCH criar o seu próprio instituto de pesquisas. E não faltaria dinheiro proveniente da iniciativa privada, que tem interesse por ciência. Basta um pouco de competência para que se crie, como sugere Reinaldo de Azevedo, “uma robusta fundação, um DataBrasil, um DataUSP”, que partiria da união entre os sociólogos, filósofos, historiadores e filólogos dali com os especialistas em estatística do IME. É vergonhoso que não se tenha na FFLCH uma fundação, como em tantas outras universidades, que edite livros e ofereça melhores traduções ao pobre acervo científico disponível em Língua Portuguesa. E isso não precisa ser financiado com dinheiro público. Esse sobraria para pintar paredes e reformar banheiros.

FFLCH-USP: prédios vergonhosos e aversão ao investimento privado

Para ver mais fotos da ocupação da reitoria da USP clique aqui

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Ocupação da reitoria da USP

FRASE

“Os atos de grupos radicais, cuja violência é condenável, não podem se sobrepor à contribuição inegável da USP ao Estado e ao país.”

Suely Vilela, reitora da Universidade de São Paulo,
em artigo para o jornal Folha de S.Paulo, em 17/05/2007

ocupacaoreitoriausp.jpg
FOTO: Simone Harnik / G1

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Trogloditas na universidade

Na última quinta-feira, conforme noticiou a Folha Online (leia o artigo), “estudantes” da USP invadiram a reitoria da universidade e destruíram móveis e portas. As aspas para a palavra estudantes são propositais pois, em realidade, trata-se de trogloditas que desconhecem a civilidade.

che-t-shirt.jpgQuem visitar o campus da universidade não vai se surpreender ao topar com uma grande massa de estudantes que adotam uma moda ultrapassada à la Che Guevara, com cabelos e barbas mal aparados e em trajes – diria – duvidosos. Camisetas estampando o rosto do idiota latino-americano Hugo Chaves ou do ditador cubano Fidel Castro não são raras. Mas fiquei surpreso, outro dia, ao ver uma garota usando uma blusa com a inscrição Hò Chí-Minh – nome do ditador comunista do Vietnã –, e, pouco adiante, um rapaz com um t-shirt vermelho com a inscrição “CCCP” – que significa URSS, no alfabeto cirílico. Quem sabe, um dia desses, encontro algum troglodita trajando uma camiseta com o nome de Pol Pot*.

Naturalmente, há muito romantismo e idealismo juvenil na cabeça desses estudantes. A maior parte, quando ingressar no mercado de trabalho – e tiver real noção do que foi o comunismo no século passado -, refletirá a respeito da estupidez de um dia. Uns poucos, porém, principalmente aqueles que não forem muito bem sucedidos em suas vidas profissionais, talvez continuem achando que a “saída pela esquerda” seja o melhor caminho para amenizar as dificuldades impostas pelo “malvado mundo da globalização” e militarão em algum MST, PT ou PSOL.

Como estudante da universidade, depois desses comentários, corro risco de ser repudiado por parte daqueles que se identificarem com os perfis descritos acima. Poderei ser estigmatizado como mais um “porco capitalista”.

Minha intenção, contudo, não é ingressar numa batalha ideológica, mas chamar a atenção para a possibilidade democrática que todos têm de expressar-se, seja através das inscrições nas camisetas, seja através da moda – por mais duvidosa que seja. O que não é possível tolerar são manifestações animalescas, com quebra-quebras violentos, tais como ocorreram na reitoria.

pol-pot.jpg* Pol Pot, líder do Khmer Vermelho, movimento comunista do Cambodja, exterminou entre 1,7 e 2,0 milhões de pessoas (quase ¼ da população de seu país), entre 1975 e 1979. Em números proporcionais, Pol Pot foi responsável pelo maior genocídio da história. As vítimas eram espancadas até a morte ou sufocadas com sacos plásticos para poupar balas de artilharia.

Dados do United Human Rights Council

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