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Uma análise sóbria sobre o Iraque atual

prospect.jpgUma das críticas mais constantes que se ouve a respeito da intervenção americana no Iraque refere-se ao tipo regime que se pretende impor a um povo que não tem qualquer vínculo ou tradição com a democracia ocidental, principalmente, a americana. O ódio aos Estados Unidos, alimentado pela doutrina Bush, tem caracterizado a maioria dos textos que se vêem publicados na imprensa latino-americana e européia.

Por essa razão, a leitura do artigo de Mario Vargas Llosa, que é um resumo – como ele próprio afirma – de um ensaio de Bartle Bull, publicado na revista britânica Prospect -, é um alento àqueles que desejam informação isenta de demagogia e propaganda.

Caso haja interesse de aprofundamento no assunto, clique aqui para ler o ensaio original, da revista Prospect, sob o título ‘Mission accomplished’, de Bartle Bloom, em inglês.


vargas-llosa.jpgTerroristas se dão mal no Iraque
por Mario Vargas Llosa
para O Estado de S.Paulo | Domingo, 11 de novembro de 2007

Alguém se atreveria a afirmar, hoje, contra a impressão generalizada, que a intervenção militar no Iraque, em vez de um fracasso catastrófico, vai cumprindo seus objetivos e já alcançou um ponto de não retorno? Bartle Bull, especialista inglês no Oriente Médio, no último número de Prospect, a prestigiosa revista londrina dirigida por David Goodhart, publica um ensaio defendendo essa tese, intitulado “Missão cumprida”. Seus argumentos são polêmicos, mas nada propagandísticos, nem demagógicos.

Bull deixa de lado a questão de se foi errônea ou acertada a decisão de intervir no Iraque – algo que os historiadores decidirão no futuro – e limita-se a cotejar a situação atual do país e a que reinava quase quatro anos e meio atrás, quando Estados Unidos, Grã-Bretanha e um grupo de países aliados decidiram acabar com a ditadura de Saddam Hussein. Ele sustenta que, hoje em dia, as forças da coalizão se encontram no Iraque com a anuência de um governo democraticamente eleito e com um mandato que a ONU vem renovando a cada ano desde maio de 2003, a última vez em agosto passado.

No seu entendimento, as metas estratégicas da intervenção foram alcançadas. O Iraque não se desintegrou e sua unidade territorial e política parece agora mais firme do que outrora, pois o sistema descentralizado em marcha conta até com o apoio dos curdos, cuja vocação separatista diminuiu de maneira radical. Em vez de uma ditadura, o país é uma democracia na qual, em todas as eleições realizadas, a participação popular foi enorme, superior à que caracteriza as sociedades abertas do Ocidente, de modo que seu governo tem uma legitimidade jurídica e política indiscutível. O país já se deu uma Constituição que garante uma independência institucional e liberdades públicas que nem o Iraque nem nenhum de seus vizinhos conheceram em sua história.

Não eclodiu uma guerra civil e o Irã não ocupou o Iraque nem tutela sua vida política. O país deixou de ser um perigo para a paz mundial e, embora muito lentamente, vai se convertendo na primeira sociedade árabe com eleições livres, liberdade de imprensa, partidos políticos diversos e direitos civis reconhecidos.

A violência, é claro, continua causando sofrimentos terríveis. Mas, embora seja obscena a comparação, o número de mortos dessa guerra e do terrorismo resultante – os cálculos variam de 80 mil a 200 mil – está longe de alcançar o 1,5 milhão de mortos resultante das guerras, genocídios e repressões do regime baathista de Saddam Hussein. A imensa maioria dessas mortes foi obra das matanças cegas e indiscriminadas contra a população civil cometidas pelos terroristas estrangeiros da Al-Qaeda ou os de organizações sunitas e xiitas que guerreavam entre si e procuravam neutralizar a população civil pelo pânico.

Embora esse gênero de violência provavelmente se prolongue ainda por muito tempo – o número de fanáticos capazes de voar em pedaços com um caminhão ou carro carregado de explosivos parece nunca acabar -, ele perdeu toda significação política e, hoje, converteu-se em um problema puramente local e policial. Foi diminuindo aos poucos, e o fato decisivo contra ele foi o distanciamento e a ruptura crescentes entre a Al-Qaeda e a população sunita. Essa aliança aliança foi esfriando à medida que os dirigentes sunitas se convenciam de que, ao contrário do que acreditavam no início, as tropas americanas e britânicas só abandonarão o país quando o governo iraquiano estiver em condições de assegurar a ordem e a paz. Convenciam-se, em outras palavras, de que o Iraque não será um segundo Vietnã.

Bartle Bull assinala que a aliança entre a Al-Qaeda e outras seitas terroristas fundamentalistas (todas mais ou menos identificadas com um wahabismo radical) empenhadas em ressuscitar a pureza de costumes e a ortodoxia doutrinária “do tempo do Profeta”, de um lado, e os sunitas do Baath (um partido inspirado no nacional-socialismo de Hitler, não se deve esquecer) ansiosos para restaurar os privilégios de que gozavam no tempo de Saddam Hussein estava condenada à divisão.

O mal-estar cresceu quando os fanáticos wahabistas estrangeiros, em sua fúria puritana, começaram a impor sua rígida moral nas zonas por eles dominadas, proibindo o cigarro, assassinando os vendedores de álcool e os xeques das tribos, além de casar jovens à força com os “emires” do grupo denominado “Estado Islâmico do Iraque”.

A ruptura se consumou quando os sunitas compreenderam que podiam encontrar uma forma de acomodação e convivência no novo Iraque onde a maioria xiita – três vezes mais numerosa que a minoria sunita – terá as rédeas do poder.

Bull assinala que a nova política pragmática dos sunitas tornou possível, por exemplo, a notável transformação da Província de Anbar, durante bom tempo uma cidadela da resistência e do terrorismo, e agora a mais pacífica de todo o país. Nas 18 províncias iraquianas, a violência se reduziu a níveis mínimos ou desapareceu na metade delas.

Esse processo deve se acelerar à medida que a população sunita sentir, nos fatos, que sua sobrevivência não está ameaçada no Iraque dominado pelos xiitas e que sua presença, tanto nas instituições como na vida econômica, política e social, está assegurada.

Um passo nessa direção, diz Bull, foi o acordo de princípio entre xiitas, sunitas e curdos sobre a delicada questão da distribuição do faturamento com o petróleo, que deverá ser confirmado em breve com a aprovação de uma lei avalizada pelos Estados Unidos, pela União Européia e pelas Nações Unidas.

Bull destaca alguns marcos nesse desenvolvimento. Um deles foi a batalha entre sunitas e xiitas desencadeada com a destruição, por aqueles, da mesquita de Samarra. Foi o momento em que parecia inevitável uma guerra civil generalizada. Mas os sunitas, cedendo ao realismo, recuaram quando se viram derrotados. A partir daí, eles começaram, no início discretamente e agora de maneira explícita, a pactuar com os Estados Unidos e o governo de Nuri al-Maliki.

Um dos efeitos desses acordos foi o número crescente de sunitas incorporados ao Exército e às forças policiais iraquianas nos últimos meses. Nas últimas semanas, foram 5 mil.

EMPREGO

Ao mesmo tempo, num gesto de reciprocidade, o governo iraquiano deu emprego no serviço público a outros 7 mil sunitas e reconheceu o direito a vencimentos plenos de todos os ex-oficiais e soldados baathistas reformados, com exceção dos 1.500 vinculados a crimes e torturas – a maioria dos quais, ademais, já está presa, morta ou fugiu para a Síria, a Jordânia e a Arábia Saudita.

Esse é um resumo muito sucinto do ensaio de Bartle Bull. Minha impressão é que, embora possa parecer demasiadamente otimista e ainda não ressalte suficientemente, entre suas considerações, as seqüelas trágicas que certamente terá para a reconstrução do Iraque e a normalização de sua vida social a hemorragia atroz de vidas humanas e bens causada pelo terror, assim como a fuga para o estrangeiro de seus melhores quadros, executivos e profissionais, as perspectivas que o analista britânico assinala para o futuro do Iraque são provavelmente exatas, embora os prazos talvez sejam mais dilatados do que ele acredita.

Somente o ódio tão amplo aos Estados Unidos explica o consenso, entre comentaristas e políticos ocidentais e terceiro-mundistas, de que, assim como no Vietnã, as tropas americanas acabarão partido às pressas, expulsas do Iraque pelos “resistentes” e pela repulsa da opinião pública internacional. Por sangrenta e dolorosa que seja a situação no local, o certo é que agora no Iraque não são os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, mas sim os bandos terroristas que estão levando a pior.

A última contra-ofensiva dirigida pelo general americano David Petraeus obteve maior sucesso que o esperado e, até agora, não houve o menor retrocesso. E está claro que se iludiam os que achavam que, com um triunfo democrata nas próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos, viria a debandada. Hillary Clinton e Rudolph Giuliani, os dois prováveis candidatos, deixaram bem claro que, a esse respeito, sua posição é semelhante: a retirada das tropas será feita na medida em que o governo iraquiano esteja em condições de substituí-las tanto na batalha contra o terror como na manutenção da ordem pública.

Sendo assim, eu também penso que os enormes sacrifícios do povo iraquiano nesses últimos quatro anos e meio não terão sido em vão. 

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El regreso del ‘idiota latinoamericano’

WEEKLY NEWS

vargas-llosa.jpgA volta do idiota
por Mario Vargas Llosa
para LA NACION | Tradução: O Estado de S.Paulo

Há dez anos surgiu o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano“, no qual Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa arremetiam com tanto humor quanto ferocidade contra os lugares-comuns, o dogmatismo ideológico e a cegueira política por trás do atraso da América Latina. O livro, que golpeava sem misericórdia, mas com sólidos argumentos e provas efetivas, a incapacidade quase genética da direita obstinada e da esquerda boba de aceitar uma evidência histórica – a de que o verdadeiro progresso é indissociável de uma aliança indestrutível entre duas liberdades, a política e a econômica, ou, em outras palavras, entre democracia e mercado -, teve um sucesso inesperado. Além de atingir um vasto público, provocou saudáveis polêmicas e as diatribes inevitáveis num continente ‘idiotizado’ pela pregação ideológica terceiro-mundista, em todas as suas aberrantes variações, do nacionalismo, do estatismo e do populismo até – como não – o ódio aos Estados Unidos e ao ‘neoliberalismo’.

Uma década depois, os três autores voltam a sacar das espadas e investir contra os exércitos de ‘idiotas’ que ultimamente, de um extremo a outro do continente latino-americano, em vez de diminuir, parecem reproduzir-se com a rapidez dos coelhos e baratas, animais de fecundidade proverbial. O humor está sempre presente, assim como a pugnacidade e a defesa em alto e bom som, sem o menor complexo de inferioridade, dessas idéias liberais que, nas atuais circunstâncias, parecem particularmente impopulares no referido continente.

Mas é realmente assim? As melhores páginas de El Regreso del Idiota dedicam-se a demarcar as fronteiras entre o que os autores do livro chamam de ‘esquerda vegetariana’, com a qual quase simpatizam, e ‘esquerda carnívora’, que detestam. A primeira é representada pelos socialistas chilenos – Ricardo Lagos e Michelle Bachelet -, pelo brasileiro Lula da Silva, pelo uruguaio Tabaré Vásquez, pelo peruano Alan García e aparentemente – quem diria! – pelo nicaragüense Ortega, que agora abraça e comunga freqüentemente com seu velho arquiinimigo, o cardeal Obando y Bravo. Esta esquerda já deixou de ser socialista na prática e é hoje a mais firme defensora do capitalismo – mercados livres e empresa privada -, embora seus líderes, em seus discursos, ainda rendam homenagem à velha retórica e, da boca para fora, reverenciem Fidel Castro e o comandante Chávez. Esta esquerda parece ter entendido que as velhas receitas do socialismo jurássico – ditadura política e economia estatizada – só continuariam afundando seus países no atraso e na miséria. E felizmente resignou-se à democracia e ao mercado.

a-volta-do-idiota-latino-americano.jpgJá a ‘esquerda carnívora’, que há alguns anos parecia uma antiqualha em vias de extinção que não sobreviveria ao mais longevo ditador da história da América Latina – Fidel Castro -, renasceu das cinzas com o ‘idiota’ que é a estrela do livro, o comandante Hugo Chávez. Num capítulo muito proveitoso, os autores radiografam Chávez em seu entorno privado e público, com suas desmesuras e palhaçadas, seu delírio messiânico e seu anacronismo, assim como a astuta estratégia totalitária que governa sua política. Discípulo e instrumento de Chávez, o boliviano Evo Morales representa, dentro da ‘esquerda carnívora’, a subespécie ‘indigenista’, que, pretendendo subverter cinco séculos de racismo ‘branco’, prega um racismo quíchua e aimará – idiotice que, embora careça totalmente de solvência conceitual em países como Bolívia, Peru, Equador, Guatemala e México, pois em todas essas sociedades o grosso da população já é mestiça e tanto os índios quanto os brancos ‘puros’ são minorias, causa grande furor entre os ‘idiotas’ europeus e americanos, sempre sensíveis a qualquer estereótipo relacionado à América Latina. Embora na ‘esquerda carnívora’ por enquanto figurem, de modo inequívoco, três trogloditas – Fidel, Chávez e Morales -, El Regreso del Idiota analisa com sutileza o caso do estreante presidente Correa, do Equador, tecnocrata grandiloqüente que poderá engordar suas fileiras.

Os personagens inclassificáveis da lista são o presidente argentino Kirchner e sua bela esposa (e talvez sucessora), a senadora Cristina Fernández, mestres do camaleonismo político, pois podem passar de ‘vegetarianos’ a ‘carnívoros’ e vice-versa em questão de dias ou mesmo horas, embaralhando todos os esquemas racionais possíveis (como fez o peronismo ao longo de sua história).

Uma novidade em El Regreso del Idiota em relação ao livro anterior é que agora o fenômeno da idiotice é examinado pelos autores não só na América Latina, mas também nos Estados Unidos e na Europa, onde, como demonstram estas páginas com exemplos que às vezes produzem gargalhadas, às vezes lágrimas, a idiotice ideológica também é representada por encarnações robustas e epônimas. Os exemplos foram bem escolhidos: a lista é encabeçada pelo inefável Ignacio Ramonet, diretor de Le Monde Diplomatique, tribuna insuperável de toda a espécie no velho continente, e autor do mais dócil e servil livro sobre Fidel Castro – façanha difícil, diga-se de passagem! Ramonet tem a companhia de Noam Chomsky, caso flagrante de esquizofrenia intelectual, que é inspirado e até genial quando limita-se à lingüística transformacional e um ‘idiota’ irredimível quando desata a falar de política. A Mãe Pátria espanhola é representada pelo dramaturgo Alfonso Sastre e suas toscas distinções entre o terrorismo bom e o terrorismo ruim; e os prêmios Nobel, por Harold Pinter, autor de densos dramas experimentais raramente inteligíveis, ao alcance apenas de públicos arquiburgueses e exóticos, e demagogo inapresentável quando vocifera contra a cultura democrática.

No último capítulo, El Regreso del Idiota propõe uma pequena biblioteca para que as pessoas se desidiotizem e alcancem a lucidez política. A seleção é bastante heterogênea, pois inclui desde clássicos do pensamento liberal, como O Caminho da Servidão, de Hayek, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, de Popper, e A Ação Humana, de Von Mises, até romances como O Zero e o Infinito, de Koestler, e os grandes volumes narrativos de Ayn Rand A Nascente e Quem é John Galt? (a meu ver, teria sido preferível incluir qualquer um dos ensaios ou panfletos de Ayn Rand, cujo individualismo incandescente superava o liberalismo e beirava o anarquismo, em vez de seus romances, que, como toda literatura edificante e de propaganda, são ilegíveis). Por outro lado, não há nada a declarar contra a presença de Gary Becker, Jean François Revel, Milton Friedman e Carlos Rangel, o único autor de língua hispânica da seleção, cujo fantasma deve sofrer o indizível com o que acontece em sua terra, uma Venezuela que ele já não reconheceria.

Apesar do bom humor, da insolência revigorante e da atitude positiva dos autores diante dos ventos ruins que correm pela América Latina, é impossível não perceber, nas páginas deste livro, um ar de desmoralização. Não é por menos. Pois o certo é que, apesar dos casos de modernização bem-sucedida assinalados – o já conhecido do Chile e o promissor de El Salvador, sobre o qual o livro oferece dados muito interessantes, assim como os triunfos eleitorais de Álvaro Uribe na Colômbia, Alan García no Peru e Felipe Calderón no México, que foram claras derrotas para o ‘idiota’ em questão -, o certo é que, em boa parte da América Latina, há um claro retrocesso da democracia liberal e um retorno do populismo, inclusive em sua variante mais cavernal: a do estatismo e do coletivismo comunistas.

Esta é a angustiante conclusão implícita neste livro febril e combativo: na América Latina, pelo menos, existe uma certa forma de idiotice ideológica que parece irredutível. Pode-se derrotá-la em batalhas, mas não na guerra, porque, como a hidra mitológica, ela reproduz seus tentáculos de novo e de novo, imunizada contra os ensinamentos e desmentidos da História, cega, surda e impermeável a tudo que não seja sua própria escuridão.

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Liberalismo, segundo Mario Vargas Llosa

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mariovargasllosa.JPGEm entrevista a Edney Silvestre, no Jornal da Globo, o escritor Mario Vargas Llosa (foto), uma das grandes vozes críticas na América Latina, falou sobre o liberalismo. “Alguns o chamam de conservador; outros, simplesmente, de reacionário”, instigou o repórter.

”Eu sou um liberal. A extrema esquerda converteu essa palavra em um palavrão, xingamento, mas ela se origina da palavra ‘liberdade’ – a palavra mais bonita do idioma, que trouxe as grandes conquistas: a tolerância, os direitos humanos, a divisão de poderes, o pluralismo político. Todas as grandes conquistas da civilização têm sua origem no progresso da liberdade. O importante do pensamento liberal é que não se trata de um pensamento dogmático, não é fanático e aceita a possibilidade de equivocar-se, de estar errado – e portanto está permanentemente se corrigindo e auto-criticando”, respondeu Vargas Llosa, com muita propriedade.

Por essas razões, destacamos a frase » o mundo visto por um prisma liberal «, no alto deste blog. Estamos plenamente de acordo com a definição apresentada por Vargas Llosa e acreditamos que um “mundo livre e democrático” permitirá que nos livremos mais rapidamente da pobreza, das desigualdades sociais e das guerras entre os povos.

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El regreso del Idiota

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vargas-llosa.jpgEl regreso del idiota
por Mario Vargas Llosa
para LA NACION | Sábado 24 de febrero de 2007

Hace diez años apareció el Manual del Perfecto Idiota Latinoamericano, en el que Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner y Alvaro Vargas Llosa arremetían con tanto humor como ferocidad contra los lugares comunes, el dogmatismo ideológico y la ceguera política que están detrás del atraso de América latina.

El libro, que golpeaba sin misericordia, pero con sólidos argumentos y pruebas al canto, la incapacidad casi genética de la derecha cerril y la izquierda boba para aceptar una evidencia histórica -que el verdadero progreso es inseparable de una alianza irrompible de dos libertades, la política y la económica, en otras palabras, de democracia y mercado-, tuvo un éxito inesperado. Además de llegar a un vasto público, provocó saludables polémicas y las inevitables diatribas en un continente “idiotizado” por la prédica ideológica tercermundista, en todas sus aberrantes variaciones, desde el nacionalismo, el estatismo y el populismo hasta, cómo no, el odio a Estados Unidos y al “neoliberalismo”.

Una década después, los tres autores vuelven ahora a sacar las espadas y a cargar contra los ejércitos de “idiotas” que, quién lo duda, en estos últimos tiempos, de un confín al otro del continente latinoamericano, en vez de disminuir parecen reproducirse a la velocidad de los conejos y cucarachas, animales de fecundidad proverbial. El humor está siempre allí, así como la pugnacidad y la defensa a voz en cuello, sin el menor complejo de inferioridad, de esas ideas liberales que, en las circunstancias actuales, parecen particularmente impopulares en el continente de marras.

Pero ¿es realmente así? Las mejores páginas de El Regreso del Idiota están dedicadas a deslindar las fronteras entre lo que los autores del libro llaman la “izquierda vegetariana”, con la que casi simpatizan, y la “izquierda carnívora”, a la que detestan. Representan a la primera los socialistas chilenos -Ricardo Lagos y Michelle Bachelet-, el brasileño Lula da Silva, el uruguayo Tabaré Vázquez, el peruano Alan García y hasta parecería -¡quién lo hubiera dicho!- el nicaragüense Ortega, que ahora se abraza con, y comulga con frecuencia de manos de su viejo archienemigo, el cardenal Obando.

Esta izquierda ya dejó de ser socialista en la práctica y es, en estos momentos, la más firme defensora del capitalismo -mercados libres y empresa privada- aunque sus líderes, en sus discursos, rindan todavía pleitesía a la vieja retórica y de la boca para afuera homenajeen a Fidel Castro y al comandante Chávez.

Esta izquierda parece haber entendido que las viejas recetas del socialismo jurásico -dictadura política y economía estatizada- sólo podían seguir hundiendo a sus países en el atraso y la miseria. Y, felizmente, se han resignado a la democracia y al mercado.

La “izquierda carnívora”, en cambio, que, hace algunos años, parecía una antigualla en vías de extinción que no sobreviviría al más longevo dictador de la historia de América latina -Fidel Castro-, ha renacido de sus cenizas con el “idiota” estrella de este libro, el comandante Hugo Chávez, a quien, en un capítulo que no tiene desperdicio, los autores radiografían en su entorno privado y público con su desmesura y sus payasadas, su delirio mesiánico y su anacronismo, así como la astuta estrategia totalitaria que gobierna su política.

Discípulo e instrumento suyo, el boliviano Evo Morales, representa, dentro de la “izquierda carnívora”, la subespecie “indigenista”, que, pretendiendo subvertir cinco siglos de racismo “blanco”, predica un racismo quechua y aymara, idiotez que, aunque en países como Bolivia, Perú, Ecuador, Guatemala y México carezca por completo de solvencia conceptual, pues en todas esas sociedades el grueso de la población es ya mestiza y tanto los indios como los blancos “puros” son minorías, entre los “idiotas” europeos y norteamericanos, siempre sensibles a cualquier estereotipo relacionado con América latina, ha causado excitado furor.

Aunque en la “izquierda carnívora”, por ahora, sólo figuran, de manera inequívoca, tres trogloditas – Castro, Chávez y Morales – en El regreso del idiota se analiza con sutileza el caso del flamante presidente Correa, de Ecuador, grandilocuente tecnócrata, quien podría venir a engordar sus huestes.

Los personajes inclasificables de esta nomenclatura son el presidente argentino, Kirchner, y su guapa esposa, la senadora Cristina Fernández (y acaso sucesora), maestros del camaleonismo político, pues pueden pasar de “vegetarianos” a “carnívoros” y viceversa en cuestión de días y a veces de horas, embrollando todos los esquemas racionales posibles (como ha hecho el peronismo a lo largo de su historia).

Una novedad en El regreso del idiota sobre el libro anterior es que ahora el fenómeno de la idiotez no lo auscultan los autores sólo en América latina; también en Estados Unidos y en Europa, donde, como demuestran estas páginas con ejemplos que producen a veces carcajadas y a veces llanto, la idiotez ideológica tiene también robustas y epónimas encarnaciones. Los ejemplos están bien escogidos: encabeza el palmarés el inefable Ignacio Ramonet, director de Le Monde Diplomatique , tribuna insuperable de toda la especie en el Viejo Continente y autor del más obsecuente y servil libro sobre Fidel Castro -¡y vaya que era difícil lograrlo!-, y lo escolta Noam Chomsky, caso flagrante de esquizofrenia intelectual, que es inspirado y hasta genial cuando se confina en la lingüística transformacional y un “idiota” irredimible cuando desbarra sobre política.

La Madre Patria está representada por el dramaturgo Alfonso Sastre y sus churriguerescas distinciones entre el terrorismo bueno y el terrorismo malo, y los premios Nobel por Harold Pinter, autor de espesos dramas experimentales raramente comprensibles y sólo al alcance de públicos archiburgueses y exquisitos, y demagogo impresentable cuando vocifera contra la cultura democrática.

En el capítulo final, El regreso del idiota propone una pequeña biblioteca para desidiotizarse y alcanzar la lucidez política. La selección es bastante heterogénea pues figuran en ella desde clásicos del pensamiento liberal, como Camino de servidumbre , de Hayek, La sociedad abierta y sus enemigos, de Popper, y La acción humana, de von Mises, hasta novelas como El cero y el infinito, de Koestler, y los mamotretos narrativos de Ayn Rand - El manantial y La rebelión de Atlas . (A mi juicio, hubiera sido preferible incluir cualquiera de los ensayos o panfletos de Ayn Rand, cuyo incandescente individualismo desbordaba el liberalismo y tocaba el anarquismo, en vez de sus novelas que, como toda literatura edificante y propagandística, son ilegibles.)

Nada que objetar, en cambio, a la presencia en esta lista de Gary Becker, Jean François Revel, Milton Friedman y (el único hispano hablante de la selección) Carlos Rangel, cuyo fantasma debe sufrir lo indecible con lo que está ocurriendo en su tierra, una Venezuela que ya no reconocería.

Pese a su buen humor, a su refrescante insolencia y a la buena cara que sus autores se empeñan en poner ante los malos vientos que corren por América latina, es imposible no advertir en las páginas de este libro un hálito de desmoralización. No es para menos. Porque lo cierto es que, a pesar de los casos exitosos de modernización que señala -el ya conocido de Chile y el promisorio de El Salvador, sobre el que aporta datos muy interesantes, así como los triunfos electorales de Uribe en Colombia, de Alan García en Perú y de Calderón en México, que fueron claras derrotas para el “idiota” en cuestión- lo cierto es que en buena parte de América latina hay un claro retroceso de la democracia liberal y un retorno del populismo, incluso en su variante más cavernaria: la del estatismo y colectivismo comunistas.

Esa es la angustiosa conclusión que subyace a este libro afiebrado y batallador: en América latina, al menos, hay una cierta forma de idiotez ideológica que parece irreductible. Se le puede ganar batallas pero no la guerra, porque, como la hidra mitológica, sus tentáculos se reproducen una y otra vez, inmunizada contra las enseñanzas y desmentidos de la historia, ciega, sorda e impenetrable a todo lo que no sea su propia tiniebla.

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